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As complicações que emperram a adoção da áudio-descrição

Revista da SET – Edição 103

Em outubro, atendendo a ponderações de interessados como a Abert (Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão), o Minicom (Ministério das Comunicações), resolveu discutir melhor a implantação do serviço de descrição de cena em programas de televisão, que vai permitir a deficientes visuais entender a seqüência de imagens da programação, e abriu nova consulta pública.

O Minicom também suspendeu, por meio de portaria, a obrigatoriedade do serviço, previsto, em 2006, para iniciar em junho de 2008. Ela determinava a implantação da áudio-descrição na radiodifusão e retransmissão de televisão e impunha um cronograma para que as empresas adotassem a técnica.

Ainda em 2008, as emissoras deveriam fornecer o serviço por pelo menos duas horas diárias. “Paulatinamente, as formas de acessibilidade – janela de Libras (Linguagem Brasileira de Sinais, dublagem, áudio-descrição e closed caption) – iriam aumentando até que, em 2017, atingissem toda a programação diária das emissoras”, diz José Carlos Moreno, da TV Cultura, um dos palestrantes sobre o tema no último Congresso da SET, realizado em agosto.

Para a transmissão e retransmissão, a norma previa que a acessibilidade se tornasse obrigatória, para cidades com mais de um milhão de habitantes, até 29 de outubro 2008. Até 2016, em todas as cidades brasileiras.

A discussão foi reaberta por conta da pressão dos radiodifusores e deficientes visuais e também porque o Minicom foi um tanto quanto açodado. A idéia agora é debater amplamente com usuários do serviço e geradoras de rádio e televisão.

Implicações
Na parte técnica, segundo Moreno, as implicações quanto à legenda oculta, (closed caption) se devem ao fato de que ela precisa ser compatível com todos os equipamentos que permitem a passagem da linha 21. “Alguns receptores digitais de satélite mais antigos deverão ser substituídos, pois ao processarem o sinal, excluem a linha 21”, diz Moreno.

A áudio-descrição exige um encoder BTSC em cada transmissor e um modulador de áudio e vídeo com entrada BTSC. Exige também um canal de áudio exclusivo. No sinal via satélite (digital), um dos canais do segundo áudio deverá ser dedicado ao serviço, sacrificando o áudio mono ou o de coordenação. Os receptores mais econômicos possuem apenas duas saídas de áudio. “Caso se opte por transmitir em estéreo e SAP, haverá a necessidade de quatro áudios”, informa Moreno.

A implicação para a dublagem é que ela também utilizará o SAP. Na janela de Libras, no sinal da TV analógica, não se poderá atender a cláusula do acionamento opcional da janela. No digital, isso irá depender da janela estar no “carrossel”. Se sim, ela poderá ser acionada opcionalmente. “Além das implicações técnicas, para todos os serviços há a implicação dos custos operacionais”, lembra Moreno.

Seja como for, as geradoras de televisão já estão se preparando para o serviço. Na TV Cultura, da Fundação Padre Anchieta,de acordo com uma tabela preparada por Moreno e exibida no Congresso da SET,o desembolso total previsto para a implantação da áudio-descrição nos próximos anos chega a mais de 9 milhões de reais.

Na Band, por causa da tecnologia de transmissão digital via satélite, o custo será menor. De acordo com Rubens Ortiz, da engenharia da Rede Bandeirantes, serão necessários inicialmente, para atender as cidades com mais de um milhão de habitantes, cerca de 300 mil dólares para toda a rede, o que beneficiará, sobremaneira, as afiliadas. “O grande problema é mesmo o custo operacional”, diz Ortiz. Na rede ele ainda não está dimensionado, mesmo porque a produção do serviço será terceirizada.

Plataforma
A consulta pública prevê a contribuição da sociedade. Ela poderá opinar sobre o tipo de programa que receberá a áudiodescrição, a plataforma a ser usada e assuntos correlatos. Por causa dessas implicações, a implantação do serviço deverá acontecer somente no segundo semestre de 2009.

“Eu achei inteligente a abertura da consulta pública”, diz Gabriela Campedelli, pesquisadora na Cidade do Conhecimento – USP, em São Paulo. “Foi necessária para que se possa al can çar o consenso”.

Gabriela está credenciada a falar sobre o assunto por causa das pesquisas desenvolvidas na Cidade do Conhecimento. Ela começou observando como se dava a acessibilidade nos jogos digitais em rede e procurou se orientar na questão dos surdos. “A pesquisa continuou e fui parar no áudio-game, até porque existem jogos em texto que são perfeitamente jogáveis com leitores de tela”, conta ela. E assim continuou até que Gabriela, baseada em entrevistas, observações e testes, chegou às conclusões.

Caro e inviável
Para a pesquisadora, do jeito que o Ministério queria, a radiodifusão seria condenada a fazer algo que é muito caro, em muitos aspectos inviável e prejudicial aos próprios deficientes. Por exemplo, a determinação ministerial que estabeleceu faixas horárias fixas, é ruim porque desestimula o oferecimento em outros horários mais adequados à áudio-descrição.

“Por outro lado, a introdução do recurso no sistema analógico, fadado a desaparecer rapidamente, parece ser contraproducente num momento de transição tecnológica”, estranha Gabriela. “Isso oneraria de maneira descabida o setor” (veja na página 8 a tabela com os investimentos previstos pela TV Cultura). “Acho também que o setor de eletroeletrônicos deveria ser ouvido”, completa.

Só no digital
Segundo Gabriela, a áudio-descrição é pouco usual em todo o mundo. O Plano de Acessibilidade espanhol prevê, por exemplo, que a AD começa com 0,5% da programação para chegar a 10% em um prazo de 10 anos. Na Inglaterra, esse percentual é relativo a 10% da programação compatível. Na própria Diretiva da União Européia consta uma ressalva: é dito ali que a acessibilidade deve ser fornecida onde for possível e apenas no sistema digital.

Há outros fatores. As impossibilidades da áudio-descrição muitas vezes não são apenas técnicas. Deve-se ter em mente que não se atende a todos os deficientes visuais de uma só vez; cada um deles possui particularidades que devem ser levadas em consideração no roteiro de áudio-descrição. Traduzindo em miúdos: deficiente visual é aquele impossibilitado de exercer atividades cotidianas, o que não significa necessariamente que ele não consiga ver ou entender a televisão. “Até por isso, é impossível criar um método industrial de produção de AD”, diz Gabriela.

As características da deficiência visual dependem muito da época da vida em que se perdeu a visão. Considere-se uma pessoa que a perdeu muito jovem; ela passa o restante da vida sem poder ver e, portanto, tem referências abstratas, enquanto quem perdeu em idade mais avançada se apóia na memória para criar a imagem. “Isto posto, a áudio-descrição só é fundamental mesmo onde a obra for inacessível”, afirma Gabriela.

Para ela, o que deve ser priorizado é o entendimento e a informação, e não o acesso à imagem, como vem sendo colocado pelos defensores da portaria. “Não se recria a imagem por meio de palavras porque ela sempre dependerá do referencial do deficiente e também porque em uma obra de TV não existe tanto tempo assim disponível para a inserção do recurso nos intervalos entre as falas”. Hoje existem cerca de um milhão de cegos e quase 4,5 milhões de deficientes visuais no país.

Tecnicidades
Afora as tecnicidades, há uma série de problemas a equacionar antes da norma estrear pra valer. A primeira é: quem faz? Talvez a áudio-descrição não seja um problema nos grandes centros. Mas, e para aquelas emissoras do interior do país, que não têm tanto acesso assim à mão-de-obra qualificada?

Quem deve transmitir aos deficientes visuais e cegos a idéia do que está rolando na telinha são os áudio-descritores, uma categoria profissional ainda minúscula no país e no mundo. Não há uma escola para formá-los. Que tipo de curso essa pessoa teria de fazer?

Lara Pozzobon, da Lavoro Produções, do Rio de Janeiro, não se abala com esses questionamentos. “Há alguns profissionais experientes em áudio-descrição que estão formando equipes há algum tempo”, informa. Ela cita cursos sendo ministrados no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Salvador e em Fortaleza.

Credenciais
Lara também tem experiência que a credencia a opinar sobre o tema. A Lavoro começou fazendo áudio-descrição no “Assim Vivemos, Festival Internacional de Filmes sobre Deficiência”. Atualmente, seu projeto mais contundente é o Blind Tube (www.blindtube.com), o primeiro portal de entretenimento com acessibilidade. É um projeto, pioneiro no mundo, de exibição de filmes com áudio-descrição, closed caption e acessibilidade total via teclado. Em março de 2009, a Lavoro estreará na TV Brasil o programa “Assim Vivemos”, que será apresentado aos sábados e terá a áudio-descrição e a legenda.

Nas emissoras de cidades pequenas, de acordo com a expectativa de Lara, a áudio- descrição chegará no momento em que as principais emissoras colocarem no ar programas com o recurso. “Então vão começar a aparecer, provavelmente vão se proliferar, os cursos de AD para profissionais de áreas afins, como Letras (principalmente tradução) e Comunicação, para candidatos a áudio-descritoresroteiristas e artes cênicas, e candidatos a áudio-descritores-narradores”, diz ela.

De acordo ainda com Lara – a exemplo de Gabriela, ela foi uma das palestrantes de um painel sobre o assunto no Congresso SET 2008, quando descreveu a técnica da áudio-descrição, os parâmetros, as regras e sua necessária flexibilização – os profissionais que estão sendo quali- ficados agora terão chance de tornar-se experientes rapidamente, podendo multiplicar seu conhecimento a posteriori.

Parâmetros
Resumidamente, no curso os profissionais aprendem todos os parâmetros e técnicas da AD e, posteriormente, a discussão de todas as ponderações necessárias para o bom uso das regras. “Ou seja, estudamse e ao mesmo tempo colocam-se em perspectiva todos os parâmetros, já que a áudio-descrição é um trabalho muito delicado, que exige precisão, mas que não se executa sem o viés da subjetividade e da sensibilidade”, diz Lara.

Depois da edição de um programa, o áudio- descritor deve assisti-lo, selecionar o intervalo entre as falas e, onde for possível, inserir uma descrição. “Esse processo é ultra delicado porque passa por escolha de palavras. Não é algo que saia de uma hora para outra”, afirma Gabriela. Até por isso, segundo ela, o ideal é que houvesse um longo tempo de aprendizado, dado que as características da obra também devem ser respeitadas.

Existem obras onde a áudio-descrição é mais fácil de ser inserida, mas também não vale a pena colocar descrição onde a informação já é acessível. “É muito discutível a necessidade de realizar a AD em determinados tipos de programas ou até mesmo realizar ao vivo”, diz Gabriela. Caberia fazê-lo quando é possível ao áudio-descritor ter um roteiro dos acontecimentos, o que não acontece na maioria dos programas que são recheados de acontecimentos imprevistos.

Filmes
Os filmes, tanto ficcionais quanto documentários, e programas com dramaturgia, como mini-séries e telenovelas, são os mais adequados. É que quem não enxerga ou tem baixa visão pouco os compreendem, já que, ao entendimento, é imprescindível a ação física, as expressões e cenas silenciosas.

Os programas que não são muito indicados: os totalmente preenchidos por informações sonoras, caso dos programas jornalísticos. Não que eles não tenham elementos a serem descritos, mas não haveria tempo para fazê-lo.

No sistema analógico, a áudio-descrição não atrapalharia quem não é deficiente porque o som entra pela tecla SAP. Mas existem dúvidas conceituais acerca da usabilidade da tecla SAP, que muitas vezes só pode ser acessada de um menu inacessível aos cegos, problema este que segue sem solução. “Já existe um fabricante de aparelhos de TV atento e que está começando a comercializar TVs com fones, para que apenas quem precise da áudio-descrição a ouça”, finaliza Lara.