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AcadeMídia, uma nova forma de entender o áudio broadcast

Nº 150 – Abril/Maio 2015

Por Fernando Moura no Rio de Janeiro

REPORTAGEM

Aspa Stagetec do Brasil iniciou no Rio de Janeiro a primeira “AcadeMídia”, um curso para profissionais de áudio que pretende ser um ponto de transferência de conhecimento entre os profissionais envolvidos na produção, operação e engenharia de áudio e vídeo do mercado broadcast brasileiro

Aempresa alemã Aspa Stagetec iniciou no Rio de Janeiro uma serie de reuniões com profissionais do áudio. Um encontro único e pioneiro no país que já é desenvolvido pela empresa em vários países com destaque para alguns da Asia e Este da Europa.
O principal objetivo do curso é a troca de conhecimento entre profissionais do mercado que é hoje uma das melhores ferramentas na conquista da excelência e capacitação, afirmam os seus mentores.
A AcadeMídia é uma plataforma focada na inovação tecnológica, melhores práticas e conceituação acadêmica para a transferência de conhecimento entre os profissionais envolvidos na produção, operação e engenharia de áudio e vídeo do mercado Broadcast.

Augusto Oliveira, gerente Comercial da Aspa Stagetec no Brasil afirma que o mais importante do projeto é profissionalizar “ainda mais o setor”

“Os temas foram selecionados em conjunto com engenheiros e operadores de áudio para atender as principais necessidades do mercado brasileiro. As sessões serão abertas aos profissionais de todo o Brasil”, afirmou à Revista da SET, Augusto Oliveira, gerente Comercial da Aspa Stagetec no Brasil.
Ele disse no Rio de Janeiro que a empresa trouxe ao Brasil “um módulo que atua como um facilitador, como uma plataforma para troca de conhecimento que já teve sucesso na Malásia e na Rússia. Em países como o Brasil onde a formação específica em áudio é mais complexa este tipo de cursos são essenciais para a formação dos profissionais do setor.
“Nossa ideia é trocar conhecimento do mercado, gerar interação e trocar ideias para melhorar o trabalho dos profissionais de áudio, este não é um produto comercial da empresa, é um trabalho aparte que pretende avançar com os conhecimentos dos profissionais”, afirmou Oliveira.

O Curso
A primeira sessão do curso esteve a cargo de Jurgen Sebastian Malleck, gerente de Engenharia da Aspa Stagetec Brasil. Este trouxe a AcadeMídia, os “princípios de Audio Over IP”, que segundo ele são básicos na atualidade do mercado Broadcast. Para o executivo, na atualidade “todo engenheiro de áudio precisa conhecer a infraestrutura de TI de suas emissoras para poder trabalhar em conjunto com o departamento de TI desta” porque já “não chega ser um profissional de áudio, precisamos entender as restrições de rede necessárias e as diferenças entre tráfego e largura de banda”.

Os temas do AcadeMídia foram selecionados em conjunto com engenheiros e operadores de áudio

Malleck disse à Revista da SET que é preciso entender que a “TV sem vídeo pode parecer uma rádio, mas a TV sem áudio, não é nada. Por isso, é tão importante entender a importância do áudio nas emissoras” e saber que cada dia é mais importante que os profissionais “entendam o network da emissora e com ele, como funciona a interconetividade. Nos sistemas de broadcastings as emissoras e as suas afiliadas precisam ter programas comuns para trabalhar de forma simples e permitir que exista capacidade de relação entre elas”.
O engenheiro da Aspa Stagetec disse aos profissionais presentes que no momento as empresas se debatem no mercado para encaixar seus switchers de áudio aos clientes, mas o mais importante não é “o tamanho do equipamento senão quais as funcionalidades deste e que pode ser feito com ele. Hoje existem 52 modelos diferentes de switchers, com 8 tipos diferentes de produção e tecnologia por preços que variam dos 200 aos 4800 dólares. A questão é porque existem tantos produtos e com tão variados preços?” Segundo ele, por uma questão de mercado e de funcionalidades que nem sempre respondem aos padrões que são utilizados. Malleck afirma que o debate da atualidade se centra entre a “capacidade dos switchers e dos Throughputs; entre o data rate e a velocidade de tráfego, porque quanto maior for a capacidade de comutação, mais dados podem ser transportados por segundo”.

Pacotes, Ethernet e Frames
Assim, o executivo explicou aos presentes as diferenças entre os pacotes de Ethernet e Frames que podem ser transportados nos switchers e como hoje já é possível transportar cada vez maior número de pacotes por cada porta de 1Gbps, mas “que é muito perigoso utilizar a capacidade máxima dos switchers no transporte porque pode haver perdas de pacotes. Nesse sentido, é muito importante gerenciar o transporte e não permitir que o tráfego congestione os switchers para evitar a perca de pacotes. Quanto maior for a capacidade de comutação mais dados podem ser transportados.
Quanto maior a taxa de transferência, mais pacotes enviados”.

Malleck afirma que a ideia do curso é “brindar aos participantes uma visão clara e imparcial das soluções state‐of-the-art para audio-over-IP”

Ante a pergunta da Revista da SET sobre como controlar o tráfego de áudio e vídeo frente ao constante aumento da quantidade de dados e se este aumento faz que os sistemas e plataformas estejam sempre correndo contra as mudanças tecnológicas que fazem que aumente a quantidade de dados que precisam ser transportados, Jurgen Malleck disse que é uma discussão filosófica, a questão é importante na indústria porque “todo o tempo, sobretudo nos últimos anos, o aumento de capacidade de transporte tem aumentado, mas ao mesmo tempo tem aumentado o nível de dados que devem ser transportados”.
Outro dos princípios apresentando por Malleck foi o “OSI layers (Open System Interconnection Model – ISSO/IEC 7498-1), assim como os protocolos streamingem aplicações específicas e quais os tipos de interconexões que são possíveis de ser transportadas.
Um dos principais tópicos tratados neste ponto foi a utilização de cabos CAT5/6/7 e as suas principais diferenças. Que tipo de suportes podem ser utilizados com conexões de 10/100/100Mbps; e como mediante fibra óptica podemos chegar até 10 Gbps. Para ele, o ponto é trabalhar com conexões virtuais LANs (VLAN) que possam utilizar o mesmo hardware; tenham separações de baixo nível (low-level) com recursos de comutação compartilhados com um máximo de 4096 VLANs diferentes.
Mais a frente na longa palestra/aula do engenheiro alemão, este explicou os principais conceitos sobre redes IP-Address Routing, afirmando que na atualidade são essenciais para qualquer operação broadcast e que é necessário pensar que os endereços IPv4 estão chegando ao fim pelo que o futuro está em conexões baseadas em IPv6 = 128 bit = 3402 x 10^38 endereços.
Malleck explicou, ainda, como assinar um IP próprio, o IP-Address Assignment e a importância que isto tem no fluxo de trabalho; como trabalhar o TCP (Transport Control Protocol) afirmando que é preciso trabalhar com redes confiáveis e que nos permitam ter autonomia e incluam uma fácil comunicação bidirecional.
Finalmente trabalho o conceito de UDP (User Datagram Protocol) que é um protocolo baseado em mensagens que não precisam de conexão dedicada end-to-end.
A aula extremadamente técnica, mostrou as diferenças entre sistemas Unicast e Multicast ( one-to-unique many) e as utilizações do PTP (Precision Time Protocol) utilizado para a sincronização de relógios dentro da rede da emissora e como este protocolo pode ajudar a antecipar alguns problemas no transporte de pacotes.
Para finalizar a palestra da manhã falou do QoS (Quality of Service), uma solução cada dia mais necessária nas emissoras e do RTP (Realtime Transport Protocol) utilizado para o transporte de áudio e vídeo por streaming usualmente encapsulado em pacotes UDP.
Como conclusão, Jurgen Malleck disse que o mais importante é ter claro que “95% dos switchers profissionais são compatíveis” e com isso, o que o profissional precisa é “entender as suas funcionalidades e trabalhar com elas para aproveitar ao máximo o dispositivo”, e que não se pode esquecer a importância do QoS no trabalho diário porque isso “deve ser uma prioridade.
O profissional tem de assumir que é necessário um suporte DSCP baseado em 4 pontos fundamentais, o DSCP 56 para PTP data; DSCP 46 para áudio data; DSCP 8 para Control data; e um que contemple todos os outros”.
Ainda disse que o endereçamento IP pode ser estático, usando Xero- Conf, ou um servidor DHCP tendo em conta que é muito importante ter no roteamento das sub-redes que são utilizadas. Ele sugeriu para finalizar que os profissionais utilizem “áudio IP e não via Wi-Fi com conexões CAT6 com um máximo de 100m para “aproveitar ao máximo as redes IP e os switchers que possuem”.

Dante, Ravenna e outros sistemas
Na parte da tarde da primeira sessão do AcadeMídia, Jurgen Malleck trabalhou com os presentes conceitos de áudio digital trabalhando “implementações e soluções” com especificações técnicas e detalhes na implementação dos protocolos mais utilizados no mercado broadcast, como o DANTE, RAVENNA, AVB e AES-67.
Na sessão/aula o engenheiro da Aspa Stagetec realizou comparações entre estes sistemas; analisou os prós e os contras da utilização de cada um deles, e apresentou os possíveis benefícios que os profissionais podem encontrar na utilização de este tipo de aplicações.
Falando do protocolo AES/EBU (Audio Engineering Society/European Broadcasting Union) disse que esta interfase padronizada transmite sinais de áudio em tempo real trabalhando com subframes, e cada um destes está composto com 250 blocos por segundo @ 48 kHz. O executivo explicou todas as particularidades do protocolo.

Porque utilizar áudio sobre IP?
Malleck afirma que o IP é uma tendência ser volta, um fato não só tecnológico, mas também económico que permite o transporte de maior quantidade de dados em menos tempo e de melhor forma.

Jurgen Malleck brindou aos participantes além da aula, um workshop com a demonstração do sistema Delec, um sistema de intercomunicação de Salzbrenner Stagetec Mediagroup

Definindo prós e contras disse que as redes podem ser acessíveis porque cada dia mais os componentes são fáceis de arranjar e o preço destes esta baixando; porque as redes IP permitem estabelecer sinergias com as infraestruturas existentes nas emissoras e com isso avançar para uma migração.
Os principais prós enumerados foram: a existência de componentes mais acessíveis; sinergias com a infraestrutura existente; participação do progresso da indústria de TI; é simples de expandir; o backbone é fácil de controlar; possui roteamento flexível; e a interface Ethernet pode, também, ser utilizada para o controle de dados.
Dentre as principais desvantagens, a necessidade dos engenheiros das emissoras ter conhecimentos de estruturas de TI mudando de esta forma o perfil dos funcionários já que eles precisam ter habilidades que permitam sustentar estas redes; que o TCP/IP é um protocolo baseado em pacotes o que faz que o paradigma da emissora mude. Ainda falou da mudança de Timing e de muitos gargalos que surgem devido a outros serviços na rede que estão inclusos e a utilização de conectores RJ45 que não são de utilização profissional.
Falando dos sistemas, realizou uma descrição pormenorizada dos sistemas DANTE, RAVENNA, AVB e AES-67.
Deles, destaque para o primeiro por ter sido o primeiro a ser aplicável a sistemas de networks preexistentes no mercado, e que este sistema trabalha com os sistemas AVB e o AES-67. Ainda, destacou a sua simples configuração e o controle de ferramentas, o “Dante Controller”, além de sua opção de operação para múltiplos usuários ao mesmo tempo e redundância através de “Fail-Over” (tanto primaria como secundaria).
Finalmente, falando do sistema Dante disse que é escalável, tanto para sistemas Unicast como Multicast; e que pode ser utilizado para comunicações via VoIP (QoS) e que tem uma latência garantida de 0.125ms até 10ms que pode ser ajustada pelo sistema que recebe o áudio.
Na análise do sistema Ravenna disse que um dos seus diferenciais é o streaming baseado em RTP permitindo enviar mediante áudio estéreo (2ch/44.1 kHz/ 16 bit/128 frames/2,9ms).
Por outro lado, trabalhou as principais características do sistema AES- 67 e AVB, destacando que “eu amo AVB porque é a melhor solução por ser estândar, mas infelizmente não é trabalhar com todos os TI sistemas pré-existentes no mercado”, também trabalhando com sincronização PTP, gerenciamento da latência e, “mais importante: a atribuição automática de portas VLAN”. Ainda, com “uma visão clara e imparcial”, como ele mesmo disse, trouxe algumas soluções do atual state-of- -the-art para audio-over-IP e como avançar para uma profissionalização do setor nas emissoras brasileiras.

Conclusões
Entre as principais conclusões de Malleck referir que para o engenheiro um dos itens principais é realizar um esforço substancial por ter um planejamento claro e definido; deve haver um relógio mestre em todas as redes para assegurar o sincronismo; as redes devem contar com um contador de canal por dispositivo (máximo 42 canais, a 48 HK) e determinar o número de fluxos por transmissor.
Para finalizar a primeira sessão do AcadeMídia, Malleck realizou um workshop explicando as principais funcionalidades do sistema Dante da empresa Audinate, e sua plataforma Dante Controller (um software gratuito que permite enviar áudio e configurar dispositivos em uma rede Dante) e, ainda, a interfase Nexus da Aspa StageTec que permite trabalhar com diferentes redes de áudio baseada em IP, que como ele próprio disse, “depois de tanta teoria, finalmente colocamos a mão no equipamento e vemos o que eles podem fazer”.