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TV Cultura: meio século de conquistas

Memória da Radiodifusão

por Elmo Francfort Fotos: Rodrigo Paiva / FPA

O primeiro semestre de 2019 foi de muitas comemorações na TV Cultura. Afinal, não é todo dia que uma emissora chega a seu cinquentenário. Tratando-se de uma televisão educativa a comemoração deve ser em dobro: é um grande desafio ser pública e buscar subsistência comercial, sem perder os princípios culturais a que se propõe. A TV Cultura, podemos dizer, sem sombra de dúvida, que é uma referência em televisão educativa – não apenas no Brasil, mas em todo mundo. Atualmente é considerada a segunda emissora de maior qualidade do mundo (atrás apenas da BBC de Londres, outra referência!), sendo a primeira no Brasil.
Lá vai um pouco de sua história: a TV Cultura completou 50 anos no dia 15 de junho de 2019 como emissora educativa. Na verdade, contabilizando sua fase sob concessão comercial podemos considerar seis décadas de existência. Ela nasceu em 1960 como o segundo canal de TV dos Diários Associados na capital paulista. Entende-se aí que ela, além de ser um braço de primeiro canal do conglomerado, a TV Tupi – o canal 2 utilizou boa parte de seu elenco, de diretores a atores, de equipamentos até estrutura – inovou trazendo caras novas e teve por objetivo salientar os princípios culturais, mesmo sendo comercial. Isso explica-se principalmente por seu dono ser Assis Chateaubriand, criador de museus (como o MASP, que recebe hoje seu nome) e mecenas das artes no Brasil. Foi quem trouxe o meio televisivo para o País, o que fica ainda mais compreensivo unir duas paixões nesse novo canal: a televisão e a cultura. Porém, a crise nos Diários Associados a levaram praticamente ao fechamento. Em 1968 saiu do ar para renascer e não ser extinta, em 1969. A recém criada Fundação Padre Anchieta, idealizada pelo então Governador de São Paulo, Abreu Sodré, trouxe uma equipe de peso para criar um novo canal 2 paulista, agora sob concessão educativa. Profissionais como José Bonifácio Coutinho Nogueira, Cláudio Petraglia, Fernando Pacheco Jordão, Fernando Viera de Mello e muitos outros. Uma televisão que nasceu ali na Água Branca, surgida no espaço da antiga e aterrada Lagoa de Santa Marina, que continua nos deixando uma história de grandes conquistas, caindo no gosto popular. Um espaço para o bom jornalismo, para o melhor da música (erudita e popular, nacional e internacional), para o debate e… claro, um espaço para as novas gerações, as crianças e jovens! Quem aqui não assistiu a um programa da TV Cultura que tenha marcado de alguma forma alguma fase da sua vida?


Para mim, particularmente, foi uma experiência maravilhosa ter sido chamado para ser consultor do projeto dos 50 anos da TV Cultura. Foi uma viagem no tempo que contou com o apoio de todos os setores da emissora. Poucas foram as vezes que vi um canal se unir de uma forma tão grande, com tanto afinco, para comemorar seu aniversário, vestindo a camisa dos cinquenta anos. Projeto que começou evidentemente com apoio de duas pessoas, em especial: o então Diretor-Presidente da Fundação Padre Anchieta, Marcos Mendonça, e o Gerente do Centro de Documentação da entidade, José Maria Pereira Lopes (“Zé Maria”, como é conhecido, que têm dos 50 anos, 40 à serviço da TV Cultura) – sem esquecer da equipe do CEDOC, que passou dia após dia a respirar o projeto, sem abandonar suas tarefas, mas se desdobrando para deixar marcado uma data tão simbólica como essa. Depois vieram muitos outros, pessoas dos mais diversos setores, que compraram a ideia e em tempo recorde ajudaram na realização de um projeto que fez surgir uma série de livros, outra série de documentários (o “Cultura.50”), chamadas, vinhetas e programas especiais e ao final a exposição “Entra Que Lá Vem História”, aberta ao público no Shopping Center Eldorado, em São Paulo. Foram também realizados dois shows: um no Teatro Municipal de São Paulo e outro no Auditório Simón Bolívar, no Memorial da América Latina (com apresentação da Jazz Sinfônica).


Sobre as criações, a série de livros foi pensada também no ponto de vista de torná-la pública e acessível como o sinal da TV Cultura. Por isso o principal objetivo foi deixar o conteúdo aberto a todo público como e-books gratuitos no www.tvcultura.com.br/50anos/. Foram escritas, sob a edição de Bia Venturini, as seguintes obras: “TV Cultura 50 Anos”, complementando e atualizando o livro lançado dez anos atrás, quando se comemorou os 40 anos; “Brasil Toca Choro” e “Retratos da Música Brasileira”; como dois almanaques: o “Almanaque TV Cultura 50 Anos – Muitas Histórias, Informações e Curiosidades”, de minha autoria, com 336 páginas (sou suspeito pra falar, leiam e tirem suas conclusões!), e o “Almanaque Infanto-juvenil TV Cultura 50 Anos – Senta Que Lá Vem História”, de Sandro Casarini e Luiz Lentini – esses dois livros ainda contam com uma amostra do rico acervo da TV Cultura (mais de 200 vídeos) que pode ser vista por meio dos QR Codes, que acompanham os verbetes. As obras foram lançadas em evento no MISSP – Museu da Imagem e do Som no dia 11 de junho.
Agora sobre a exposição “Entra Que Lá Vem História”, ela estreou no dia 26 de maio e ficará aberta até 22 de setembro de 2019, no Shopping Eldorado (Av. Rebouças, 3970, no bairro de Pinheiros, em São Paulo). Para visitar, de terça a sexta, das 12h às 22h (última sessão 21h30); sábado e feriados, das 10h às 22h (também com última sessão às 21h30); e nos domingos das 12h às 21h (com a sessão final de entrada às 20h30). O ingresso é R$ 24,00 (inteira), sendo R$ 12,00 a meia entrada. Os ingressos estão sendo vendidos pela internet, no site www.expotvcultura.com.br, com horário e sessão marcados pelo Ingresso Rápido.
A exposição foi uma grande empreitada, com um time interno e outro externo trabalhando juntos. A realização é da TV Cultura, com co-realização das empresas Acervo21 e Caselúdico (responsável por sucessos como a exposição “Castelo Rá-tim-bum” no MIS e no Memorial da América Latina), tendo apoio cultural do Shopping Eldorado.
Para mostra, CEDOC, Engenharia, Arte, Comunicação, Mídias Sociais, Marketing e muitos outros setores da TV Cultura também colocaram como meta levantar a exposição rapidamente!
Na curadoria, Flávio de Souza, criador dos principais programas infantis da TV Cultura nos anos 1990, mas conhecido pelo público ao dar vida a personagens como Tio Dudu do “Mundo da Lua” e o cientista Tíbio do “Castelo Rá-tim-bum”. Flávio inclusive diz que a exposição “é um programa para pais, avós e filhos viajarem pela história da TV Cultura, que sempre ensinou divertindo e divertiu ensinando”. Perguntado sobre quais foram as dificuldades para levantar a mostra, ele concluiu que “o grande desafio foi criar a narrativa e incluir o máximo de programas possíveis nos mais de 500 m2 de área expositiva”. Fiz a pesquisa, criação dos textos, e digo que foi muito legal trabalhar com o Flávio de Souza, pois pude conhecer melhor sua mente genial – a quem toda uma geração de telespectadores deve muito, pois suas ideias e de sua equipe da TV Cultura ajudaram na formação educacional de muita gente. Equipe que criou programas como “Mundo da Lua” e todos os “Rá-tim-bum”, por exemplo.
Já curiosidades na exposição é o que não falta! Só uma amostra para vocês: podemos passear pela recriação de cenários (como o do “Roda Viva” ou a sala do Lucas Silva e Silva no “Mundo da Lua” ou… visitar a “Vila Sésamo”!). Podemos assistir a programas inesquecíveis, como “Provocações”, “É Proibido Colar”, “Rá-tim-bum”, “Cartão Verde”, “Vestibulando”, “Nossa Língua Portuguesa”. É possível também ver os bonecos do “Cocoricó”, o Garibaldo dos anos 1970, o X de “X-Tudo”, a fantasia dos peixes de “Glub Glub”. Há espaço para os musicais com “Viola, Minha Viola” com Inezita Barroso, “Sr. Brasil” com Rolando Boldrin, “Clássicos” e, obviamente, homenagear Fernando Faro com “Ensaio”. “Vox Populi”, “Metrópolis”, “Jornal da Cultura”, “Quem Sabe, Sabe!”, “Bambalalão”, “Matéria Prima”, “Quintal da Cultura” e muitos outros programas também estão presentes. Já o reconhecimento da emissora é possível de se ver em peças históricas de seu acervo como a coleção de prêmios Prix Jeneusse e de Emmy ali presentes.
As comemorações do cinquentenário acontecem num momento importante na história da TV Cultura e da Fundação Padre Anchieta. É de transição, quando sai Marcos Mendonça, deixando um grande legado, e assume a presidência José Roberto Maluf, cujo know how em televisão é também grandioso (com passagens pela Band, SBT, Fundação Cásper Líbero, por sua editora Spring, da Revista Rolling Stones, entre outras empresas). Maluf entra com a promessa de trazer à Fundação Padre Anchieta um novo momento, ainda mais próspero. Foi também criado um Conselho Gestor, comandado por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni. Já no Conselho Curador, Antonio de Pádua Prado Jr. (o “Paéco”) assumiu a presidência.
Que os próximos 50 anos sejam ainda mais ricos e inesquecíveis como muitas das histórias e momentos que a TV Cultura proporcionou a seus telespectadores, como também a toda área de radiodifusão.

Elmo Francfort
Elmo Francfort é radialista, jornalista, professor e coordenador do curso de Rádio, TV e Internet da Universidade Anhembi Morumbi, como também diretor do Memória da Mídia (www.memoriadamidia.com.br). É Mestre e pesquisa comunicação desde os anos 1990. Francfort é autor de diversas obras sobre história da mídia e participa dos eventos da SET desde 1998. Escreva-me: [email protected]