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Rádio em mutação: desafios técnicos, mudanças legais e apropriações tecnológicas

SET EXPO – “O olhar dos especialistas da SET”

 

Os tradicionais painéis dedicados ao rádio no Congresso da SET abordaram em sua edição de 2018 a pós-migração AM-FM, plataformas inteligentes e conteúdo

por Flávio A. B. Archangelo

Nos debates comandados pelos Eng. Eduardo Cappia (Diretor de Rádio da SET) e Marco Túlio Nascimento (Diretor da ZYDigital), ficou claro que os desafios técnicos são muitos.
Embora a migração da maior parte das emissoras de radiodifusão em OM/AM para o VHF/FM se encontre em estágio avançado, o aumento no número de estações em FM está demandando maior atenção do corpo técnico das emissoras na contenção de interferências e mesmo atualização regulamentar.
André Ulhoa Cintra (Diretor de Rádio da ABERT) trouxe novos números da migração, correlacionando com os canais disponíveis e identificando oportunidades nas quais o plano poderia oferecer mais canais para atender os ingressantes derivados da migração.
Cintra comentou que existem aproximadamente 5100 canais no plano de FM, incluindo aquelas em operação, que estão migrando, reservado às educativas e as câmaras. No entanto 2400 canais estão vagos, maioria de Classe C de municípios pequenos. A sugestão de Cintra é que os vagos sejam excluídos de maneira mais célere, sem aguardar pedido via MCTIC.
De 1781 outorgas em AM, 1622 pediram migração ao FM, sendo 1139 já incluídos no plano. O problema, segundo Cintra, é que existem canais que deveriam ser instalados em municípios vizinhos, em área de emissão compartilhada, maximizando a infraestrutura já existente, porém a norma exige que a instalação esteja no município de outorga.
Outra consideração posta é o estudo da faixa estendida, especialmente para cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba na quais é tida como impossível a migração apenas na faixa convencional de FM.
Cintra ainda tratou da necessidade de se viabilizar a acomodação de canais FM em segundo adjacente, sendo que no Brasil há um primeiro caso bem sucedido na cidade de Belém. No entanto, os estudos e viabilidades devem ser avaliados caso a caso.
Claudio Lorini (Lorini Engenharia) comentou que a Resolução 67/1998, Regulamento Técnico para Emissoras de Radiodifusão Sonora em Frequência Modulada, é em alguns tópicos muito rígida e precisa ser revista para que se adeque à realidade dos projetos. Ele comentou que mesmo o sistema Mosaico exige diagramas tomados de 10 em 10 graus, em contraposição ao previsto na norma (tomados de 30 em 30 graus para sistemas omnidirecionais, 15 em 15 graus para sistemas diretivos).
Para Lorini, o sistema direcional proporcionou a disponibilidade de canais, mas elevou complexidade do sistema. Ele considera que a norma estabelece um critério subjetivo ao falar de área de interesse, que prejudica os cálculos e médias exigidas pela resolução.
Aspectos de instalação também trazem elementos práticos dos mais relevantes, tanto do compartilhamento das soluções em si para o corpo técnico, bem como subsídios para as atualizações das normas. Para José Mauro de Ávila (Diretor Técnico da Megasistema) há experiências de laboratório, em campo, mas há necessidade de se considerar o complicador da instalação, aquela que de fato proporcionará o sinal para a população e cujas características determinarão a maneira que ocupa o espectro.
Ávila trouxe para o painel as dificuldades relativas às instalações diplexadas e os riscos de intermodulação, estudos de caso demonstraram que a atenuação obtida de -26dB é insuficiente, mesmo utilizando filtro de 4 cavidades, onde o valor estimado era -30dB. A solução encontrada foi um combinador de impedância constante, porém alternativa muito cara.
O engenheiro comentou que o radiodifusor assume responsabilidades tanto de engenharia quanto financeiras na solução de interferências mútuas, e comentou que mesmo que a IMD seja solucionada entre duas estações, é possível que seus produtos afetem um terceiro, aumentando a complexidade do sistema.
Thiago Aguiar Soares (ANATEL) comentou ainda que não apenas o segundo adjacente, mas o batimento de FI deve também ser tratado nos estudos, e que neste caso há menor flexibilização técnica. Para Soares, é necessário responder qual a distância mínima de separação entre estações para segundo adjacente, bem como sob quais condições é possível a sobreposição de contorno de 85 dBu para batimento de FI.
Apesar das problemáticas específicas, a correlação técnica entre as emissões e efeitos na recepção afeta a extensão efetiva da faixa, pois nem todos os canais disponíveis podem ser tecnicamente viabilizados e utilizados para um contexto local. Assim, o exercício de reengenharia busca maximizar o recurso disponível, espectro eletromagnético, passando pela revisão dos requisitos técnicos que promovem a harmonização das ocupações.
O planejamento inclusive não se atém ao futuro imediato. Soares, por exemplo, comentou que o eventual uso do canal adjacente trará impactos num futuro processo de digitalização da radiodifusão, com sobreposição de canais em VHF/FM. Considerando que algumas emissoras de TV permanecerão nos canais 5 e 6 até 2024, Soares também levantou a necessidade de critérios de proteção desses sinais.

Oportunidades com a digitalização
A inclusão do rádio no ecossistema digital trouxe oportunidades para as estações que estão trilhando esta difícil relação que implica em mudanças de hábitos, adaptação nos formatos, que, por sua vez, poderá explorar uma audiência renovada e ampliada por meio de conteúdos digitais.
Todos os debatedores – Marco Oliveira (Google Assistance), Rodrigo Tigre (+RedMas), Carolina Sasse (Cadena), Gilberto Gonçalves de Souza (AB 25+), Carlos Aros (Rádio Jovem Pan), Luciano Costa Hoerbe (Grupo RBS) e Juliana Simomura (Band Rádios)  em algum momento concordaram que um dos importantes elementos contidos na digitalização é a possibilidade de trabalhar com dados, viabilizando ferramentas de mensuração e monitoramento de resultados, úteis para estatísticas de audiência.
Sasse afirmou que é na experiência que ouvinte tem com a estação, independente da forma que ele a ouve, e aí reside o fator de sucesso. Para ela a internet trouxe novos comportamentos no qual há uma “tendência por investigar e compartilhar, valorizando experiências únicas e individuais, sendo que o ouvinte quer dedicar seu tempo a boas experiências”. Desta maneira melhor conhecer seu público é fundamental, podendo mesmo chegar à personalização de conteúdo e anúncios. Por isso ela estimula ações de interatividade com ouvinte, permitindo melhor conhecer seus hábitos e assim podendo direcionar seu conteúdo e realinhar estratégias de comunicação. Ainda, considerou que o novo ambiente digital complemente a receita num rádio geograficamente pulverizado, mídia regional e local, tornando desafiador trazer marcas globais como anunciantes; porém o alcance nacional e o trabalho com dados pelo rádio digitalizado permitem que “estações relativamente pequenas possam, através da mídia programática, ter grandes anunciantes que não teria se fosse feita isoladamente”, sendo essa uma das características positivas da convergência entre radiodifusão (broadcast) e a banda larga (broadband).
Neste cenário é possível desenvolver estratégias de difusão de conteúdo e anúncios por áudio digital em diferentes formatos baseados nos recursos tecnológicos. Tigre e Oliveira elencaram oportunidades pelo meio do Google Assistance, Smart Speackers, plataformas de inteligência artificial, assistentes virtuais, interfaces de voz, Áudio 3D, integração com aplicativos etc. Oliveira disse que o correto uso dos recursos pode “criar novas experiências e alcançar novos usuários, colocando a estação em destaque ao alavancar plataformas e capacitar novas habilidades tecnológicas”.
Diante desta visão multiplataforma, Aros asseverou que o rádio não é mais “apenas rádio” e que a estação de rádio não é “apenas emissora”, mas também é “receptora” no momento que abre espaço para um maior relacionamento com o ouvinte, num processo lento e de difícil convergência.
Porém são nas conquistas do rádio convencional, derivadas de dezenas de anos de história e convivência social, que residem alguns dos benefícios transladados também no rádio digital. Um exemplo é a credibilidade do radiojornalismo, em contraposição às notícias falsas (fake news) potencializadas justamente na mídia digital e a prestação de utilidade pública. Para Simomura, “o rádio confere um selo de qualidade”.
Hoerbe afirmou que a “natureza do rádio não pode ser abandonada”, e que mais importante do que a tecnologia, no modelo de negócios dependemos, também, de “pessoas que interpretem toda essa transformação com foco em desafios e resultados”, não adiantando dispor de alta tecnologia se a audiência não tiver conteúdo e como comprá-la.

Flávio A. B. Archangelo Flávio A. B. Archangelo
Flávio A. B. Archangelo é doutor em Comunicação pela Universidade Metodista de São Paulo, Mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo, jornalista pelas Faculdades Integradas Alcântara Machado. Colaborador em publicações especializadas na área de comunicações. Membro das Comissões Brasileiras de Comunicações da Anatel (CBC-2, Radiocomunicações), Comissões de Estudos de EMC da Cobei/ABNT (CB-03, Comitê Brasileiro de Eletricidade), Comissão Técnica de EMC da ABRAC, Grupo de Estudos 5 (Serviços Terrestres) da UIT, Grupo de Gestão e Defesa Espectral da LABRE, Coordenadoria da IARU para CITEL. Contato: [email protected]