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Novos dispositivos para arquivamento digital

Artigo


O arquivamento digital envolve a necessidade de sistemas de informática operados por pessoas com competência para decidir se um conteúdo deve ou não ser preservado para a posteridade e como documentar esse conteúdo para facilitar a sua recuperação. Neste estudo de caso, o autor analisa um tempo de operação de 100 anos para um acervo que cresce 100TB por ano

por Fabio TsuzukiO

Os primeiros projetos para arquivamento digital, desenvolvidos na virada do ano 2000, foram baseados nas fitas DST desenvolvidas pela AMPEX. Os circuitos que controlavam as robóticas nessa época eram pneumáticos. Essas fitas foram apresentadas em 1992 ao mercado e até o ano 2000 eram a tecnologia de ponta para arquivamento.
O uso de sistemas robotizados em televisão foi iniciado com os betacarts, os primeiros betacarts também projetados pela Ampex e posteriormente aprimorados pela Sony. Esses dispositivos automatizavam o manuseio das fitas de vídeos, eram fitas magnéticas de vídeo que correntemente são chamadas de fitas analógicas.

Segunda geração do ODA foi apresentada na NAB 2016 realizada em Las Vegas

Desde então, houve um grande avanço tecnológico que permitiu a popularização do uso de fitas magnéticas e dos sistemas robotizados que manuseiam essas fitas, que tradicionalmente eram usados em sistemas de backup, para arquivamento digital.
A família de fitas magnéticas LTO foi apresentada em 2000, mas somente após a consolidação dessa nova tecnologia quando foi apresentada a geração LTO-2, em 2003, é que essa tecnologia passou a ser aplicada em sistemas de arquivamento digital.
A tecnologia LTO, diferentemente das outras tecnologias baseadas em fitas magnéticas, é aberta e suportada por um consórcio de empresas. Não é propriedade de um único fornecedor como o caso das tecnologias DST (AMPEX) e SAIT (SONY). A família LTO já está na geração LTO-7.
Recentemente, a Sony em parceira com Panasonic apresentou a segunda geração de mídias para arquivamento digital baseados em discos óticos (Optical Disc Archive – ODA). É a primeira tecnologia efetivamente desenvolvida para arquivamento digital. As tecnologias LTO e ODA tem se mostrado bastante apropriadas para fins de arquivamento digital, e apresentam características muito distintas.
Para explorar essas características, Media Portal, Sony, EPTV e Videodata se uniram para elaborar um estudo e identificar as diferenças entre elas. A Media Portal é uma empresa que desenvolve soluções para arquivamento digital e foi a primeira empresa da América Latina a receber a certificação do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Atsugi, Japão, da Sony, garantindo a compatibilidade com as soluções de arquivamento em mídias óticas.
As fitas LTO-7 têm uma capacidade de armazenamento de 6TB, e capacidade de transferência de 300MB/s. A coercitividade magnética garante uma retenção da informação por 30 anos, mas devido à necessidade de compatibilizar com os drives de leitura e gravação disponíveis no mercado, é necessário fazer uma cópia para a geração mais atualizada antes desses 30 anos.
Vejamos um exemplo: Executamos um projeto que iniciou o arquivamento digital usando fitas da família LTO-2 em 2003. Em 2012, foi feito o upgrade dos drives para a geração LTO-4. Nesse momento, o sistema continua lendo as fitas já gravadas da geração LTO-2 e passa a gravar na geração LTO-4. O drive é capaz de ler mídias de até duas gerações anteriores, e é capaz de escrever em mídias de até uma geração anterior. O ano de 2018 parece ser o timing ideal para adquirir novos drives, provavelmente da geração LTO-8 e então deve ser iniciado o processo de migração das mídias das gerações LTO-2 e LTO-4 para a geração LTO-8, mais atual e disponível no momento. Observando este exemplo, o processo de migração pode ser iniciado após 15 anos da primeira aquisição.
Naturalmente que o processo de migração é necessário, mas ele pode ser feito nas novas tecnologias como, por exemplo, migrar de LTO para ODA (Optical Disc Archive).
A migração para ODA é particularmente interessante, pois a nova geração tem as seguintes características: capacidade de armazenamento de 3.3TB, capacidade de gravação de 125MB/s, capacidade de leitura de 250MB/s. garantia de retenção da informação é de 100 anos e não existe necessidade de migração devido à obsolescência dos drives.
Conforme observamos em nosso exemplo, apesar da garantia de 30 anos para retenção da informação, a migração deve ocorrer em torno de 15 anos devido à obsolescência dos drives. Os fabricantes da tecnologia ODA estão garantindo que as novas gerações de drives continuam lendo todas as gerações anteriores, dessa forma a migração será necessárias apenas quando chegar próximo dos 100 anos de retenção, que corresponde o tempo de obsolescência da mídia.
Apesar de ter sido feito um pequeno panorama de 15 anos de evolução, é possível observar uma grande evolução tecnológica, inclusive o surgimento da primeira tecnologia essencialmente desenvolvida para arquivamento digital.
Esse mesmo fenômeno deve ser repetido nos próximos 15 anos e assim os conceitos estabelecidos devem Artigoser revisados a cada ciclo, para decidir qual a melhor tecnologia a ser utilizada para arquivamento digital.

Arquivamento digital de vídeos
O arquivamento digital de vídeos tem a finalidade de salvar um dado arquivo de vídeo em formato digital, e permitir a sua rápida recuperação a qualquer momento.
Arquivamento digital é uma nova área de trabalho e necessita de uma atuação multidisciplinar. Inicialmente, as atividades de arquivamento foram estabelecidas juntamente com as atividades de backup.
Estas são consagradas e dominadas no âmbito de infraestruturas de TI, tanto que os primeiros sistemas de arquivamento digital de vídeos foram implementados com infraestruturas e sistemas normalmente utilizados para backup.
O arquivamento digital envolve a necessidade de sistemas de informática operados por pessoas com competência para decidir se um conteúdo deve ou não ser preservado para a posteridade e como documentar esse conteúdo para facilitar a sua recuperação.
Com o tempo, esses sistemas evoluíram e um novo conjunto de funcionalidades passou a ser necessário: proxy de baixa resolução, gestão dos metadados associados ao vídeo, dicionários controlados, thesaurus e engines poderosos para pesquisa etc. Estas novas funcionalidades fazem paste das ferramentas que gerenciam o arquivamento digital de vídeo e são designadas por sistemas de MAM – Media Asset Management, ou sistemas de DAM – Digital Asset Management.
A área de arquivamento digital de vídeos tem se expandido muito e está se tornando o núcleo de um sistema orquestrador de gestão de troca e conversão de arquivos digitais de vídeo. Esse fenômeno é bastante natural e ocorre porque o acervo gerenciado contém os conteúdos oficiais, certificados e validados pela empresa, é o acervo corporativo com os ativos digitais da empresa.
Com esta evolução, novas tecnologias têm sido integradas aos sistemas de gestão de arquivamento digital, dentre as tecnologias destacamos transcrição automática de voz para texto, análise inteligente de conteúdo.
A atividade de maior relevância passa a ser decidir o que arquivar para a posteridade, essa atividade ainda deve ser executada por uma pessoa experiente e treinada.

Infraestrutura para os testes de arquivamento digital de vídeos
Para compreender melhor o comportamento das duas tecnologias, LTO e ODA, foi elaborado um conjunto de testes. Os testes foram executados na mesma infraestrutura: mesmos servidores, mesmo storage e o mesmo sistema de MAM – Media Asset Management, o Media Portal. Considerando que a infraestrutura não foi alterada, será possível avaliar as diferenças entre as duas tecnologias Para nosso experimento, utilizamos a primeira geração ODA: capacidade de armazenamento de 1.5TB, capacidade de gravação de 55MB/s, capacidade de leitura de 138MB/s, garantia de retenção da informação até 50 anos. A robótica é fabricada pela Sony, modelo  ODS-L30M com 2 drives, ODS-D77F, e 30 slots com  possibilidade de empilhar até 5 módulos chegando a 535 slots.
Referente à tecnologia LTO foi utilizada a geração  LTO-5: capacidade de armazenamento de 1.5TB, capacidade de transferência de 140MB/s. A robótica é fabricada pela Qualstar, modelo RLS-8500 com 4 drives LTO-5, half heigth, e 54 slots, com possibilidade de expandir até 114 e ainda permite empilhar até 4 robóticas chegando a 474 slots e 22 drives.
Existem drives LTO half height e drives LTO full height, a principal diferença entre eles é que os drives full height são capazes de atingir a máxima capacidade de transferência (leitura/gravação) especificada em cada geração LTO.
Até a geração LTO-4, a diferença de desempenho entre os drives half-height e full height chegava a 50%, após a geração LTO-5, essa diferença diminuiu bastante.

Experimentos
Foi planejado um conjunto de experimentos para identificação dos principais parâmetros que envolvem os processos de arquivamento e recuperação.

  1. Agendar 12.000 vídeos jornalísticos para serem arquivados. Os vídeos contêm matérias jornalísticas com duração média de 3 minutos, o volume total a ser arquivado é de 4.5TB.
  2. Agendar 500 vídeos pós-produzidos para serem arquivados. Os vídeos contêm matérias pós-produzidas com longa duração, o volume total a ser arquivado é de 1.2TB.
  3. Recuperar os 12.000 vídeos jornalísticos arquivados.
  4. Recuperar os 500 vídeos pós-produzidos arquivados.

As medições foram feitas tanto para tecnologia LTO como para tecnologia ODA.

Resultados

A velocidade média de gravação em LTO medida foi de 80 MB/s, e a velocidade média de leitura medida foi de 60 MB/s. A velocidade média de gravação em ODA medida foi de 30 MB/s, e a velocidade média de leitura medida foi de 90 MB/s.
A tecnologia LTO tem sua velocidade de gravação maior do que sua velocidade de leitura e essa diferença não é muito grande. Por outro lado a tecnologia ODA apresenta uma velocidade de gravação muito menor do que a velocidade de leitura, e essa diferença é bastante significativa.
Além desses parâmetros, tem o tempo para iniciar o fluxo de informações, tanto para escrita como para leitura. O tempo médio, medido, desde o lançamento do comando de gravação até iniciar o fluxo de dados em um arquivamento com LTO é de 220 segundos, e o tempo médio, medido, desde o lançamento do comando de leitura até iniciar o fluxo de dados em uma recuperação com LTO é de 210 segundos. 
Foram feitos vários experimentos para avaliar a influência da posição do arquivo na fita, tanto para gravação como para leitura. Observamos que a influência é mínima, e assim não vamos detalhar estes experimentos.
O período do acionamento de um comando até o início do fluxo de informações, que podemos chamar de período de preparação, indica que a robótica está desenvolvendo várias atividades que são absolutamente automáticas: retirar uma fita do drive, pegar uma segunda fita de um slot, inserir essa fita no drive, desenrolar a fita, posicionar para leitura, e iniciar o fluxo de dados. Após finalizar o fluxo de dados, novas atividades são executadas: rebobinar a fita e finalmente devolver a fita para o slot original. Existem atividades similares quando o processo é de arquivamento (gravação na fita).
O tempo total de preparação é a soma de vários tempos, vejamos alguns que são tabelados, considerando a robótica Qualstar RLS8350, usada em nosso experimento:

  • Tempo médio para pegar um cartucho do slot e colocá-lo em um drive, ou pegar o cartucho de um drive e retorná-lo para um slot: 7 segundos.
  • Tempo para posicionar a fita no ponto de leitura ou gravação (nominal load-to-ready): 12 segundos.
  • Tempo para rebobinar a fita (nominal unload time): 17 segundos.

Os tempos de preparação envolvendo a tecnologia ODA são sensivelmente menores: observamos que após 20 segundos os vídeos começam a ser arquivados e que após 10 segundos os vídeos começam a ser recuperados. Esse tempo é sensivelmente menor porque a tecnologia permite um acesso randômico para gravar ou ler um arquivo.
O acesso randômico se contrapõe ao acesso em uma “fita” que precisa ser enrolada ou desenrolada para ser chegar ao ponto onde as informações estão armazenadas. Este tipo de acesso é essencialmente idêntico ao observado nas antigas fitas magnéticas analógicas usadas para armazenamento de conteúdos audiovisuais ou mesmo nas películas de cinema.
Com estes parâmetros medidos, é possível concluir que arquivos com tamanho de 9GB demoram o mesmo tempo para serem arquivados em ambas tecnologias, e que quanto maior o arquivo mais rápido ele será gravado em tecnologia LTO. Arquivos menores do que 9GB são gravados mais rapidamente usando tecnologia ODA.
Considerando a recuperação, observamos que sempre será mais rápida usando a tecnologia ODA, pois a velocidade de recuperação é ligeiramente superior nesta tecnologia e ainda tem a questão do tempo de preparação que é muito mais longo na tecnologia LTO do que na tecnologia ODA.
Além destes parâmetros, existem alguns recursos que podem influenciar o desempenho geral. É o caso de fazer cache dos arquivos de vídeo antes de executar o arquivamento e apenas acionar quando houver um tamanho considerável. Este recurso melhora bastante
o desempenho do arquivamento em tecnologia LTO. As medidas foram feitas sem o uso deste recurso em nossos experimentos.

O operador e os cenários de recuperação
Além dos experimentos descritos, foram feitos alguns experimentos envolvendo o operador. Este selecionou 20 arquivos para serem recuperados. Os arquivos foram previamente armazenados em diferentes cartuchos ODA e os mesmos arquivos foram arquivados em diferentes fitas LTO. Esses 20 arquivos fazem parte do conjunto de 12.000 arquivos que foram usados no teste anterior.
O operador acionou a recuperação dos 20 arquivos de vídeos e avaliou o tempo total para recuperação.
Na infraestrutura existe um hub de mídia, que é um storage que está integrado aos sistemas robotizados, e o  sistema foi configurado para transferir dois (2) arquivos de cada vez a partir deste storage até o ponto de recuperação requisitado pelo operador. Quando os 20 arquivos se encontram no hub de mídia observamos que o tempo total para finalizar a recuperação é de 10 minutos.
A operação de recuperação foi acionada, e nesta nova situação os arquivos foram recuperador a partir dos cartuchos ODA. O sistema foi configurado para a recuperação de dois (2) drives simultaneamente e assim o tempo total para recuperar os mesmos 20 arquivos foi de 16 minutos. Segundo o próprio operador, não houve muita diferença comparado com a primeira situação.
Temos uma nova situação de teste. Nesta nova situação o operador acionou a recuperação para os mesmos 20 arquivos, mas a recuperação foi a partir das fitas LTO. O sistema estava configurado para operar com quatro (4) drives em paralelo e o tempo total para recuperação foi de 32 minutos. O tempo é bem mais longo do que o observado na situação anterior.
Ainda foram feitos testes com uma última situação, nesta última situação o operador acionou a recuperação para os mesmos 20 arquivos, a recuperação foi a partir das fitas LTO como no cenário anterior, mas o sistema estava configurado para operar com apenas dois (2) drives em paralelo e o tempo total para recuperação foi de  60 minutos.
Este experimento demonstra claramente que a recuperação de arquivos a partir das fitas LTO é mais demorada. Existe um gargalo no sistema. O gargalo é o ponto de estrangulamento que impede desempenhos maiores quando se tem cargas maiores. Para minimizar o efeito deste gargalo, é necessário ter mais drives disponíveis, conforme foi demonstrado em nossos experimentos. O acesso randômico aos arquivos, disponível na tecnologia ODA, traduz-se em maior agilidade para recuperação dos arquivos, e não existe uma caracterização de gargalo.

Clonagem das mídias
A atividade de clonagem de mídias consiste em executar uma cópia fiel da mídia original. Esta atividade pode ser descrita como execução do backup da mídia original, a mídia original pode ser chamada de mídia de operação e ao longo do uso ela pode sofrer algum dano físico, impedindo uma fácil recuperação dos arquivos nela contidos.
Por esta razão, a execução de clones (backups) é uma atividade importante para garantir que o conteúdo arquivado sempre seja recuperado. O processo de clonagem foi acionado para fitas LTO e para os cartuchos ODA.
O clone de um cartucho ODA levou 23 horas para ser finalizado. Esse tempo demasiadamente longo se deve ao fato de a velocidade de gravação ser três vezes mais lenta que a velocidade de leitura.
O clone de uma fita LTO pode levar de 10 até 16 horas para ser finalizado. O tempo varia de acordo com a quantidade de arquivos armazenados na mesma. A clonagem de fitas com vídeos jornalísticos demora até 16 horas para ser finalizada enquanto que para fitas com vídeos pós-produzidos, vídeos mais longos – arquivos maiores, esse tempo se apresenta bem mais curto e tem levado até 10 horas para o processo de clonagem ser finalizado.
A clonagem das mídias é uma atividade fundamental nos processo de formação do acervo. Tem a finalidade de garantir que os arquivos gerenciados sejam recuperados, mesmo que ocorra algum problema com a mídia de operação.
Sempre vai existir a possibilidade de uma mídia ser danificada a ponto de impedir a recuperação de seu conteúdo. Por esta razão, existem algumas sugestões para melhorias nos processos de arquivamento, além do processo de clonagem, descritos no próximo tópico.

Robustez do sistema
Normalmente o processo de clonagem é feito após uma mídia ficar completa. Esta técnica é particularmente interessante, pois permite determinar o melhor instante para executar o clone. O processo de clonagem ocupa dois drives, um drive lendo a mídia original e outro drive criando o clone através de uma gravação, e conforme foi observado demora várias horas para ser finalizado, não importa qual tecnologia esteja sendo utilizada.
A gravação de arquivos em fita LTO demora muito mais tempo para ser finalizada do que o processo de clonagem por conta do longo tempo de preparação. O tempo de preparação foi medido e está na média de 220 segundos.
Uma maneira alternativa, que eliminaria o processo de clonagem manual, consiste em fazer um cachê dos arquivos de vídeo a serem arquivados e ao fazer a gravação executar em paralelo a gravação em duas fitas, desta forma o tempo para fazer o clone é praticamente eliminado, mas é necessário ter drives extras para permitir uma gravação em duas fitas simultaneamente. Este processo de clonagem incremental pode ser aplicado tanto para tecnologia LTO como para tecnologia ODA.
Empresas com grandes acervos, como o acervo de vídeos do Vaticano, a Rede Globo, dentre outras grandes empresas e instituições, têm aderido ao uso da tecnologia ODA por conta da maior robustez e durabilidade apresentado por essa mídia. Essa robustez se deve a menor quantidade de mecanismos envolvidos nos processos de gravação e leitura dos arquivos armazenados. Os processos de gravação e leitura são essencialmente baseados em tecnologia laser.
Existe uma tendência em usar tecnologias mistas para arquivamento digital. Quando se manipula grandes acervos sempre vai existir alguma falha. As falhas vão se traduzir na impossibilidade de recuperar um item, ou vários itens, que foram arquivados. As causas conhecidas são as mais variadas e o novo conceito de ter três (3) cópias do mesmo arquivo, sendo duas cópias em tecnologias distintas e duas cópias guardadas em locais distantes tem se demonstrado a melhor e mais robusta.
A aplicação do conceito de clonagem preconiza pelo menos duas cópias e a guarda em dois locais distintos, um local é onde ocorrem as recuperações, onde as operações do dia a dia são processadas, o outro local seria um local de guarda propriamente dito. Se a clonagem for feita em tecnologias distintas então o sistema ganha mais robustez. Assim é interessante fazer arquivamento usando tecnologia LTO, por exemplo, e fazer a clonagem da mídia usando tecnologia ODA.

Atualização tecnológica
Correntemente, as gerações disponíveis são: segunda geração ODA e sétima geração LTO. Veja o quadro com os dados referentes a essas novas gerações:

Podemos constatar que as gerações apresentam tempos de gravação e leitura bem mais velozes, esses tempos praticamente dobraram comparados com as gerações que foram utilizadas em nossos testes.
Desta forma, o acesso randômico e a robustez são os grandes diferenciais entre as duas tecnologias. Veja o quadro comparativo:

Este quadro sintetiza bem a diferença entre as duas tecnologias. Os pontos fortes da tecnologia LTO são o baixo custo e as altas taxas de transferências de arquivo. O seu ponto fraco é a demora em começar a trafegar um arquivo. Os pontos fortes da tecnologia ODA são o acesso randômico, e assim os arquivos começam a ser transferidos rapidamente. Outro ponto forte da tecnologia ODA é a durabilidade e a robustez das mídias bem como a compatibilidade dos drives eliminando a necessidade de migrar mídias por conta da obsolescência dos drives. É importante reforçar que é a primeira mídia projetada para ser usada com a finalidade de arquivamento digital.

Total Cost of Ownership
Para estimar o Total Cost of Ownership será considerado o tempo de operação de 100 anos para um acervo que cresce 100TB por ano. Para efeito de cálculos vamos considerar o consumo de mídias.
Ao longo de 100 anos não existe necessidade de executar nenhuma migração se o acervo for feito em tecnologia ODA. São necessárias 31 mídias ODA-2 a cada ano. Ao final de 100 anos o acervo contará com 3.100 mídias ODA. O advento de uma nova geração apenas vai influenciar no momento de migração, quando as mídias ficam obsolescentes, assim ao longo de 100 anos podemos usar sempre a mesma mídia.
Conforme observamos um tempo ideal para manter uma mídia LTO no acervo é de 15 anos. Se o acervo cresce 100TB por ano, começando o arquivamento com a tecnologia LTO-7. São necessárias 17 fitas LTO por ano. Após 15 anos o acervo contará com 255 fitas. A migração ocorrerá nesse ano por conta da obsolescência dos drives e devemos migrar para uma geração mais atual, supondo uma fita com 4x a capacidade de armazenamento da geração LTO-7. Assim o acervo, atual de 255 fitas se resume em 64 fitas e nos próximos 15 anos serão utilizados mais 64 fitas. Desta forma o acervo de 30 anos totaliza 128 fitas.
Esta operação deve ser repetida sucessivamente e uma nova migração ocorrerá em 45 anos, outra migração ocorrerá em 60 anos, outra migração em 75 anos e outra migração em 90 anos. O total de mídias LTO usadas ao longo de todo o processo é 255 fitas para os primeiros 15 anos, 128 fitas para os próximos 15 anos completando 30 anos de operação, 64 fitas quando completar 45 anos de operação, 32 fitas quando completa 60 anos de operação, 16 fitas quando completa 75 anos de operação e 8 fitas quando completa 90 anos de operação. Estamos considerando uma evolução da tecnologia LTO que naturalmente é hipotética, mas é baseada na evolução observada nos últimos 15 anos.
A quantidade total de fitas usadas nesta operação será de: 255+128+64+32+16+8=647. Efetivamente é uma quantidade muito pequena de fitas por conta da crescente evolução da capacidade de armazenamento.
Se considerarmos que a geração LTO-7 é a mídia disponível e se manterá ao longo dos próximos 100 anos então a migração deve ocorrer a cada 30 anos. Estamos eliminando a obsolescência dos drives deste panorama. Serão necessárias 500 fitas para os primeiros 30 anos. Será necessário executar uma migração nesse momento e assim serão necessárias mais 500 fitas para a migração e mais 500 fitas para formar o acervo dos próximos 500 anos. E assim sucessivamente o total de fitas do acervo ao final de 100 anos será de 1667 fitas. Nos primeiro 30 anos foram usados 500 fitas e ocorre a primeira migração. Aos 60 anos foram usadas 1.000 fitas e ocorre a segunda migração. Aos 90 anos foram usadas 1.500 fi-tas e ocorre a terceira migração. O total de fitas utilizadas neste cenário é de: 1.667+500+1.000+1.500=4.667.
Se agregarmos o fato de ser necessário ter uma equipe alocada para acompanhar cada processo de migração, é simples entender que o custo de operação da tecnologia LTO chega a ser 3 a 6 vezes maior do que o custo de operação da tecnologia ODA.

Conclusão
As mídias com tecnologia ODA são as primeiras mídias projetadas para arquivamento digital e suas características fortalecem a aplicação para esta finalidade. O acesso randômico permite inserir o seu uso em acervos jornalísticos onde a recuperação rápida é uma característica importante.
O custo da tecnologia LTO é bastante acessível, mas esse custo pode ser superado se considerarmos o panorama para arquivamento de longo prazo, pelo menos 100 anos. Nesse panorama os custos operacionais precisam ser considerados e são referentes ao processo de migração do suporte físico, devido a obsolescência dos drives e das mídias.
Garantia de 100 anos é algo inédito! Apesar deste nosso esforço para compreender o impacto desta nova tecnologia nos negócios, necessitamos de mais estudos e esperamos que novas tecnologias que garantam a longevidade dos acervos digitais sejam desenvolvidas e disponibilizadas ao mercado. A garantia da compatibilidade entre as gerações mais antigas de mídia e as novas gerações de drives é algo positivo.
Temos adotado essa política de compatibilidade no desenvolvimento de nosso sistema. Recentemente, fizemos um grande esforço para modernizar e integrar o Media Portal com o ambiente de cloud computing. Agora o sistema tem novos conceitos de arquitetura, mas será possível fazer um upgrade do sistema antigo e ter o novo sistema em produção, pois todo o trabalho de desenvolvimento foi executado pensando na compatibilidade.
As qualidades que garantem compatibilidade e padronização são totalmente alinhadas com o conceito de longevidade nos negócios, a compatibilidade e padronização serão ainda mais efetivas se forem abertas e de domínio público.
Essa é a história da tecnologia LTO. Historicamente, o arquivamento em fitas magnéticas foi uma tecnologia dominada por poucas empresas. Em meados de 2000 um grupo de empresas se reuniu e criaram o consórcio LTO, estabelecendo um padrão aberto para uso das fitas magnéticas, desde então a tecnologia ganhou popularidade e se disseminou. É uma tecnologia consolidada e madura.
A tecnologia ODA representa uma quebra na lógica de mercado baseado em obsolescência, essa a tecnologia está amadurecendo e esperamos que tenha tanta longevidade quanto as mídias fabricadas com essa tecnologia. O trabalho de preservação de acervos também não está inserido na lógica de mercado baseado em obsolescência, assim necessita de soluções longevas, que agora estão começando a surgir.
Jeremy Rifkin fala da economia de compartilhamento, contrapondo com a economia capitalista, cuja lógica de mercado é baseada na obsolescência. O trabalho de preservação de acervos é uma área onde a economia de compartilhamento deve se desenvolver, no entanto o compartilhamento transcende a questão do tempo, é um compartilhamento que deve ocorrer com as gerações futuras.

Agradecimentos
Este estudo não seria possível sem a colaboração e participação de grandes empresas e grandes pessoas em particular agradecemos à EPTV por disponibilizar pessoas chaves para realizarmos estes estudos e a disponibilização de toda a infraestrutura utilizada para arquivamento digital. Agradecemos ao grande apoio da Sony por disponibilizar os equipamentos necessários para realizar os experimentos aqui detalhados e ainda mobilizar sua equipe de profissionais dando amplo e total apoio, e por ser ousada e apresentar ao mercado a primeira tecnologia para arquiva-mento digital garantindo 100 anos de preservação. Esperamos que novas iniciativas sejam criadas evidenciando a necessidade de preservamos nossos acervos. Agradecemos à Videodata que vem apresentando tecnologias inovadoras e viabilizando uma efetiva parceria entre todas as empresas envolvidas. Agradecemos à Tandberg Data, excepcional parceiro de longa data, que tem nos acompanhado desde nosso primeiro projeto aplicando tecnologia LTO para arquivamento digital de grandes acervos de vídeos.

Fabio de Sales Guerra Tsuzuki é engenheiro eletrônico e mestre em engenharia pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, doutor em engenharia pela Universidade de Tóquio. Sócio fundador da Media Portal Soluções Ltda.