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A nova TV norte-americana

NAB 2017

Frente aos novos desafios da convergência, a televisão americana se une de uma vez ao mundo Broadband e inicia uma nova era na indústria do entretenimento

Gordon Smith, presidente da NAB, durante a abertura do congresso e feira NAB 2017, onde apontou o caminho para a indústria de RTV © Foto: Francisco Machado Filho

Gordon Smith, presidente e CEO da NAB, mais uma vez apontou o caminho pelo qual a radiodifusão americana irá seguir nos próximos anos. Como em todas as aberturas oficiais do congresso em Las Vegas, Smith sempre chama a atenção para os aspectos que fazem da televisão americana uma plataforma importante e necessária para os cidadãos daquele país e do mundo também. Nos últimos anos de congresso, a inserção local com noticiários, programas regionais, prestação de serviços e publicidade local sempre foram os destaques apresentados por ele para justificar a necessidade da existência de televisão aberta. Seus discursos saudavam as novas tecnologias, mas as via como algo a ser somado à televisão e não disruptiva ou substitutiva.
Porém, este ano tudo mudou. Gordon Smith pode não ter tido esta intenção, mas o que ele anunciou em seu discurso oficial foi o nascimento de uma nova Era para a televisão americana. Se anteriormente cada indústria deveria atuar em seu devido lugar, a partir de agora o mundo Broadcast e o mundo Broadband se integraram de uma vez. E nesta integração está a dependência dos negócios no futuro da mídia, do entretenimento e da tecnologia. Conheça o M.E.T effect. Este foi o tema do congresso esse ano. A união destas três vertentes é que a partir de agora irão fomentar os negócios na indústria do entretenimento, da distribuição e das plataformas e dispositivos de recepção de conteúdo audiovisual. Este é o efeito a que se refere Smith. Uma nova gama de modelos e oportunidades de negócios que irão se mostrar à frente que revolucionarão a velha TV aberta e massiva levando-a a se tornar um veículo ainda de massa, mas capaz de entregar conteúdo e publicidade personalizada.

 A transmissão do 4K em sinal aberto já é uma realidade em algumas cidades da Coreia do Sul, país que já adotou o padrão ATSC 3.0 e vem utilizando a UHD como diferencial © Foto: Francisco Machado Filho

Esta nova fase da TV norte-americana não foi anunciada neste momento por acaso. Esta tomada de decisão somente pode ser pensada devido a um fator determinante: o ATSC 3.0. Este novo padrão de transmissão para a TV terrestre, além de outras características, está preparado para somar o que os mundos broadcaster e broadband têm de melhor. Soma-se a confiabilidade e a escalabilidade da entrega de conteúdo a um custo fixo para milhões do setor broadcaster com as possibilidades interativas e personalizastes do broadband. “Temos uma arquitetura de entrega de um para muitos que é a inveja de outras plataformas de mídia”, afirma Smith, que também salienta, “quando somamos nossas forças e as combinamos com as novas tecnologias, como a distribuição por IP e maior conectividade, as emissoras poderão se tornar mais fortes”. Mais fortes pode significar mais viáveis economicamente, mais lucrativas e essenciais dentro do sistema midiático e da indústria do entretenimento.
Além da possibilidade da TV híbrida o novo padrão também está preparado para a Televisão em UHD. A transmissão do 4K em sinal aberto já é uma realidade em algumas cidades da Coreia do Sul, país que já adotou o padrão ATSC 3.0 e vem utilizando a UHD como diferencial na cobertura de eventos específicos, como esportes, shows e documentários e este também aparenta ser o uso do UHD nos Estados Unidos.
Mas a transformação mais significativa que este novo sistema traz aparenta ser mesmo a TV híbrida. As oportunidades que este novo formato apresenta para a TV aberta são tremendas e que até pouco tempo eram impensáveis para um sistema de transmissão sem canal de retorno. Ainda é cedo para afirmar qual será a característica da TV híbrida americana, mas os agora padrões concorrentes como o HbbTV (Europa) e o Hybridcast (Japão) se caracterizam pela oferta de conteúdo on demand, no sistema europeu e na prestação de serviços, no padrão japonês. Contudo, o que realmente importa neste novo formato é a possibilidade de distribuir publicidade personalizada. Isso irá gerar a necessidade, não só de novas estratégias de publicidade e propaganda, como a criação de novos formatos de programas adaptados a esta nova realidade. É um mundo novo para a televisão no maior mercado publicitário do mundo e que exigirá muito dos gestores e profissionais de conteúdo nesta fase inicial. É certo que as mudanças não serão tão significativas nos próximos anos. Não se altera um modelo de negócios de um dia para o outro, ainda mais de uma indústria que tem estreita relação com seu público. A TV entra em todos os lares em diversas proporções em todo mundo e alterar drasticamente essa relação pode colocar algumas emissoras e sistemas midiáticos em problemas ainda mais graves que a concorrência com as outras plataformas de distribuição de conteúdo. Na questão tecnológica, o que podemos aferir é que muito em breve, o consumidor de produtos audiovisuais não irá perceber que tecnologia está usando para receber este conteúdo. Ele poderá vir pelo ar, pela rede ou por ambos. Poderá ser um conteúdo produzido em 4K, com HDR, ou em HD HDR. Quanto mais amigável for a utilização (seja qual for o dispositivo) para o usuário/ espectador, melhor será para a indústria. Por isso, os efeitos do M.E.T, possam ser sentidos mais tardiamente, porém é certo que serão.
E o Brasil? Será afetado por esse novo posicionamento do mercado de TV americano? Certamente que sim, mas temos aqui uma configuração da indústria de televisão que proporciona um período maior para adaptabilidade a uma possível união entre o setor broadcast e broadband. Aliás, a indústria televisiva brasileira causa inveja em vários mercados internacionais. A TV aberta no Brasil ainda é de longe o meio com maior investimento publicitário. Tem a maior penetração nos domicílios chegando a quase totalidade dos municípios deste país continental.
De acordo com o relatório de 2016 Global Digital Future In Focus da ComScore, o maior consumo de horas na rede se destinam às redes sociais e não ao consumo de informações ou entretenimento e quando ele se dá, brasileiros ainda preferem consumir conteúdos em desktop e multiplataformas, que se sobressai ao consumo unicamente em dispositivos móveis. O Brasileiro gosta de ver televisão e gosta de ver TV no aparelho de TV. Entretanto, o estudo também aponta que quando o consumo é computado apenas em dispositivos móveis e por aplicativos fica clara a tendência de consumo do entretenimento. Os três primeiros Apps de maior uso no país são: WhatsApp Messenger (85%), Google Play (83%) e YouTube (75%), respectivamente. Por isso a televisão brasileira possui um tempo ainda favorável para seu Upgrade em relação ao mercado americano, mas de modo algum pode se acomodar ou esperar demais para pensar uma estratégia que contemple toda essa nova cadeia produtiva.
O Brasil não poderá ficar isolado diante dos mercados internacionais que irão ofertar produtos de maior qualidade técnica (4K) e com recursos personalizantes e interativos. Será possível então uma TV híbrida no Brasil? Essa é uma pergunta que foge aos aspectos unicamente tecnológicos e ainda estando em pleno desligamento do sistema analógico fica evidente que ficamos um passo atrás do mercado mundial de televisão. Será muito interessante acompanhar o que irá acontecer nos Estados Unidos e a implantação do sistema ATSC 3.0. Será um campo de testes excepcional para que o Brasil possa aprender com os erros daquele país e implantar um novo padrão que permita a televisão brasileira continuar com a relevância social que tem atualmente e com a liderança e preferência da audiência e a enorme fatia do bolo publicitário.