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NAB três décadas depois

NAB 2017 –  “O OLHAR DOS ESPECIALISTAS DA SET”

Enquanto estamos completamente tomados com as providências para o desligamento do sinal analógico no Brasil, a NAB nos alerta que temos outros tantos desafios pela frente, abertos pelas conquistas de engenharia

por Raimundo Lima

O público presente analisou as transformações da mídia, entretenimento e tecnologia e como o conteúdo é criado e entregue ao consumidor/telespectador/internauta © Foto: Francisco Machado Filho

Em 1989, era madrugada quando cheguei a Las Vegas para a minha primeira NAB, eu não tinha ideia do que eu iria encontrar pela frente. Fiquei com o queixo caído ao entrar no Centro de Convenções e ver tantas pessoas, uma infinidade de equipamentos, ideias, novas propostas de trabalho, tudo num único lugar, tudo num mundo que me parecia um pouco distante da realidade de televisão brasileira à época. Foi prazeroso e agoniante ao mesmo tempo, ver tantas novidades, que estavam expostas naquela edição da maior feira de televisão do mundo. Não estávamos num momento tão globalizado quanto agora em que as novidades são apresentadas ao mundo de uma maneira quase simultânea. Uma vez li que, na NAB de 1961, o astronauta Alan Shepard e o Presidente John F. Kennedy causaram sensação ao falarem na NAB, essa informação, sempre me serviu de referência para dar a importância desse evento.
Agora em 2017, logo no primeiro dia que cheguei à Las Vegas, encontrei o meu amigo que me convidou para ir a minha primeira feira há quase trinta anos atrás. Era um bom sinal, sinal de que mais uma edição impactante da feira estava para acontecer.

© Foto: Divulgação

E, não me enganei, o que dizer de uma edição da maior feira de mídia, entretenimento e tecnologia do mundo que exibiu a primeira transmissão 4K UHD, ao vivo – diretamente da Estação Espacial Internacional (ISS).

Sam Blackman (Elemental Technologies); Peggy A. Whitson (Astronauta); e Jack Fischer (Astronauta) © Foto: Francisco Machado Filho

Simplesmente deslumbrante, não é mesmo. A astronauta Peggy Whitson, conversou com o CEO da AWS Elemental Sam Blacman, numa transmissão histórica de 15 minutos de duração. A Estação Espacial Internacional estava a 250 milhas de altura acima do nível do mar, voando a uma velocidade de 17.500/ milhas por hora, e aquelas duas pessoas conversando como se estivessem em condições semelhantes e próximas. Enquanto estamos completamente tomados com as providências para o desligamento do sinal analógico de televisão no Brasil, a NAB nos alerta que temos outros tantos desafios pela frente, abertos pelas conquistas de engenharia.
Em apenas três décadas, testemunhei a passagem frenética de alguns ciclos de transformações tecnológicas, e, muito mais ciclos virão, porque esses ciclos estão cada vez mais curtos. Já na abertura da convenção, Gordon Smith, presidente e CEO da National Association of Brodcasters, anunciou que o mar de transformações na mídia, entretenimento e tecnologia nos farão refletir na maneira em que conduzimos os nossos negócios e como o conteúdo será criado e entregue ao consumidor/ telespectador/internauta, que a cada dia tem mais opções nas maneiras de acesso e consumo dos conteúdos. As emissoras de televisão agora transmitem os seus conteúdos de maneira mais ampla, para smartphones, tablets e a nova geração de monitores 4K UHD, serviços via IP, com áudio imersivo e qualidade de vídeo superior, tudo possível com a Next Gen TV que será alimentada pelo ATSC 3.0. A transmissão do espaço conjunta da NASA e AWS/Elemental e as novidades da feira foram um presente para os cerca de 103 mil visitantes presentes na NAB 2017, representando mais de 150 países e os mais de 1.700 expositores que foram vender, comprar, buscar novos negócios, atualizações e novidades em Las Vegas, nos Estados Unidos.
No mundo IP, cada vez mais, podemos constatar a mudança e opções nos equipamentos broadcast dotados dessa tecnologia, assim como, as transmissões streaming que representam a ponte entre as transmissões tradicionais e as plataformas sociais, o chamado social broadcasting. Esse fenômeno transforma qualquer portador de um smartphone num potencial repórter ou produtor de conteúdo. Constatamos também que o conteúdo continua sendo o “rei”, mas para que possa ser distribuído em várias plataformas diferentes e de forma simultânea, requerem atenções específicas. Os produtores de conteúdo, distribuição e transmissão não podem ignorar o acesso do público às ferramentas que possibilitam a gravação, criação e transmissão para que não percam o papel da liderança de fornecedores de informações relevantes e de interesse dos telespectadores.
Outro fenômeno que já estamos observando nas últimas edições da feria são os drones que trouxeram um novo olhar e ângulos de exploração da visualização de cenas. Já está mais que provado que o fenômeno veio para ficar, com amplo uso na televisão (entretenimento, esporte, dramaturgia e jornalismo), no cinema e produções variadas.
Circular pelos amplos pavilhões do Centro de Convenções de Las Vegas, requer uma certa disciplina e experiência para se tirar bom proveito dos lançamentos e de tudo que está sendo exibido. Ouvi um sábio conselho do Roberto Franco (ex-Presidente da SET), dado aos marinheiros de primeira viagem que estavam no nosso grupo de visita à feira – “tirem um tempo para circular nas bordas dos pavilhões que é onde geralmente se concentram os pequenos expositores e olhem principalmente para o potencial dos produtos oferecidos. Há muitos anos atrás, nessa borda ficava um expositor pequeno chamado BlackMagic, olhem hoje a posição e importância desse expositor na NAB.”
O fato é que a NAB oferece muito mais do que possa parecer num primeiro momento, é uma visita transformadora para todos os profissionais envolvidos na indústria da televisão, cinema, rádio, produção, distribuição e transmissão de conteúdo. Tecnologias como o armazenamento em nuvem, realidade virtual 360 graus, realidade aumentada, sistemas de automação e as próximas gerações de tudo que já conhecemos, nos fazem refletir no futuro das nossas ocupações e conhecer as tendências mundiais.
Depois de uma intensa semana de maratona tecnológica e se sobrar um tempinho, uma fezinha nas roletas dos cassinos, pode fechar o compromisso.

Raimundo Lima é diretor Técnico e Operações da SBT e diretor Editorial da Revista da SET. Formação UFF — Universidade Federal Fluminense — TV Digital e Novas Mídias Eletrônicas. PUC/SP — Jornalismo Multimídia. Sony Instutite of Video Technology. UnB — Universidade de Brasília – Educação. Contato: rlima@sbt.com.br