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NAB 2018: Quando as indústrias convergem inovações emergem

NAB 2018 – “O OLHAR DOS ESPECIALISTAS DA SET”

Novas ferramentas para o futuro da engenharia de áudio e vídeo: Blockchain, Smartdevices, Broadcast personalizado, Assistentes de Voz, Inteligência Artificial no fluxo de produção, Smartspeakers, entre outras tecnologias apresentadas em Las Vegas

por Emerson Weirich

Oartigo que você está lendo foi inspirado em um dos slogans do NAB Show: “When industries converge innovations emerge”, ou seja, “Quando as indústrias convergem inovações emergem”. Ele representa como o Congresso norte-americano se renovou nos últimos anos com a convergência das tecnologias e consequentemente das indústrias que produzem os equipamentos e da produção de mídia que os utilizam profissionalmente. O avanço da tecnologia é muito rápido e as novidades podem ser disruptivas. Mas como nem toda a nova tecnologia que reluz é ouro, é preciso avaliá-las do ponto de vista de engenharia e do ponto de vista de viabilidade econômica. As empresas e os profissionais de todas as áreas estão vivendo um momento de transformação entre a velha e a nova economia, influenciadas fortemente por esse avanço das tecnologias. O NAB Show é o evento mais importante para profissionais de mídia, entretenimento e tecnologia que procuram maneiras novas e inovadoras de criar, gerenciar, entregar e monetizar conteúdo de áudio e vídeo em qualquer plataforma. Da mesma forma, o NAB Show é onde a tecnologia inovadora é revelada, soluções inovadoras são exibidas e as tendências de mudança de jogo são expostas.
De uma forma geral e resumida, no evento de 2018 foram apresentados os primeiros casos reais das primeiras infraestruturas de emissoras instaladas no último ano com equipamentos em interface Real Time IP, ou seja, no padrão SMPTE ST 2110, substituindo o bom e conhecido SDI. Com isso, novas possibilidades já foram exploradas como a produção remota de esportes, que no caso apresentado foi distribuída fisicamente pela Europa e totalmente em Real Time IP, utilizada no Campeonato Europeu de Futebol. Neste caso, foi instalado um datacenter de produção em nuvem e testado na prática os benefícios da produção remota com cerca de 29 pontos de captação de imagem com produção centralizada, unificando recursos técnicos e equipe de produção. Além da transição para o 2110, também vimos o formato 4K e também o High Dynamic Range – HDR já consolidados em vários equipamentos de vários fabricantes, o 8K começando a aparecer, áudio imersivo e o ATSC 3.0 já aprovado e sendo testado em interessantes protótipos conceituais.
A convergência das tecnologias traz inúmeras novas áreas de atuação. É o caso da segurança de dados, inteligência artificial e Machine Learning, do uso de Big Data para a personalização de conteúdo, e sem dúvida das tecnologias de otimização de recursos e que proporcionam redução dos custos de produção.

A mídia para passageiros dos carros autônomos e a versão da nova geração da televisão apresentada pela ATSC 3.0

Segundo o CEO da Intel, a condução autônoma (aquela feita por carros autônomos sem motoristas humanos), impulsionará o novo “mercado de passageiros”, estimado mundialmente no valor de US$ 7 trilhões. A tecnologia autônoma impulsionará mudanças em várias indústrias além da própria área de transportes, isto incluirá sem dúvida a indústria de mídia e entretenimento. Estima-se que daqui a 20 anos ou 30 anos, os veículos autônomos já podem estar consolidados e liberem mais de 250 milhões de horas de tempo de deslocamento dos consumidores por ano nas cidades mais congestionadas do mundo. São motoristas que se tornarão passageiros, e o que eles podem estar fazendo dentro destes carros autônomos? Entre outras atividades, consumindo mídia de diferentes formas. É importante pensar em estratégias para esse novo “mercado de passageiros”. A visão apresentada é que parte do conteúdo será pelas futuras redes de dados de alta performance como o 5G e parte pelo Broadcast.
Neste espírito, o ATSC disponibilizou na prática na NAB Show um carro autônomo com uma televisão sintonizando um sinal experimental de televisão digital móvel, transmitindo sinal na região de Las Vegas em ATSC 3.0. O veículo autônomo esteve disponível para que os participantes do evento experimentarem a televisão móvel em uma viagem autônoma entre um pavilhão e outro do evento.
Também no ATSC 3.0 foi mostrado alguns dos recursos que podem estar disponíveis em breve. O novo sistema combina uma estrutura baseada na TV Híbrida (a capacidade do receptor de televisão de combinar de forma sincronizada a recepção via ar com conectividade de banda larga e aplicativos interativos em HTML 5). Desta forma, o novo padrão americano de televisão permite que um receptor de TV personalize a experiência do telespectador por meio da coleta de dados e coleta de preferências do usuário. Os dados coletados podem incluir informações demográficas e pessoais, como código postal, idade, sexo, faixa de renda e afins, enviados de forma opcional. As respostas são armazenadas e estão disponíveis para aplicativos em execução no dispositivo. Desta forma, diferentes televisores podem fornecer diferentes experiências ao espectador com base nos dados exclusivos do usuário armazenados em cada receptor. Na NAB deste ano foi possível ver o protótipo de dois receptores de televisão que rodavam comerciais diferentes no mesmo canal recebido de televisão e no mesmo instante, conforme o perfil do telespectador que está assistindo cada televisor. Uma espécie de “Broadcast Personalizado” onde o conteúdo pode chegar em forma de dados paralelos pelo Broadcast ou mesmo pela Internet.

Um caso real de Rádio Hibrido que funciona e prioriza o radiodifusor local

Rádio Híbrido já em produção no carro conectado modelo Audi A8, que recebe Broadcast e Broadband no mesmo receptor de forma integrada

O sistema chamado de RadioDNS é um sistema para Rádio Híbrido, ou seja, são receptores de sinal de rádio via transmissão do radiodifusor e ao mesmo tempo conectado à Internet. O RadioDNS foi demonstrado em um receptor real, já produzido em série, desenvolvido para um modelo de carro conectado da Audi, o novo Audi A8. O sistema suporta vários tipos de portadoras em FM analógico, AM analógico, e digitais em DAB, HD Radio e DRM. O receptor sintoniza a emissora local pelo broadcast convencional e a portadora transmite o endereço DNS (Domain Name System) para o receptor acessar informações adicionais pela internet móvel (por 3G, 4G, 5G, Wi-Fi etc.). O sistema DNS amplamente utilizado na Internet é o responsável por permitir que o receptor de rádio encontre na Internet o servidor da mesma. No receptor demonstrado na feira, foi carregado pela Internet o logo da estação, as informações adicionais sobre o programa em execução, a parte visual sincronizada com o assunto do áudio e ainda a opção de “auto-tunning para a programação em IP” caso a cobertura do broadcast não esteja disponível. Além disso, é possível receber conteúdo adicional em áudio IP em formato podcast de algum programa específico que o ouvinte selecione enquanto ouve o broadcast.

O conceito de rádio híbrido é muito interessante pois junta as vantagens dos dois sistemas, as do broadcast por ser um sistema de entrega confiável, gratuito para receber, cobertura generalizada, escala de custo-benefício, e as vantagens do broadband móvel por ser uma comunicação bidirecional, pode personalizar conteúdo, facilita o engajamento com a emissora e ainda facilita estabelecer métricas de audiência.
O projeto é um padrão aberto, inicialmente criado por uma série de emissoras e fabricantes desde 2008. A implementação pelo radiodifusor é muito simples pois basta se cadastrar no sistema de DNS e assim o sistema automaticamente relaciona a transmissão broadcast com o conteúdo broadband na Web. O Radio DNS já é muito utilizado por emissoras públicas e comerciais de rádio na Europa e quer se expandir por outros países. O mais interessante é que se trata de um dispositivo totalmente integrado ao painel do carro, com um sistema que prioriza as emissoras de radiodifusão locais e sem deixar toda a funcionalidade de uma estação pela Internet.

Blockchain aplicado na distribuição e controle de consumo de vídeo

Visão da IBM apresentada na NAB Show 2018 para a tecnologia do blockchain aplicado na indústria de mídia

A tecnologia blockchain se tornou amplamente conhecida recentemente por sua aplicação nas chamadas criptomoedas, onde o “Bitcoin” foi a primeira e ainda é a mais popular. Uma moeda digital é descentralizada e utiliza o blockchain para assegurar a validade das transações e a criação de novas unidades da moeda. No entanto, o blockchain é uma tecnologia fundamental que realiza uma espécie de livro de registros digitalou um diário distribuído altamente seguro. Essa tecnologia pode ser aplicada em uma ampla variedade de desafios em torno de transações distribuídas e no controle de auditoria dessas transações.
Tecnicamente, o blockchain é um arquivo digital com uma estrutura de dados complexa. Como o nome block-chain sugere, traduzindo “corrente de blocos”, consiste em uma sequência de blocos, onde cada bloco faz referência ao bloco anterior. De forma resumida, cadabloco é uma transação cuja entrada faz referência a saída da transação anterior e vice-versa. Todas as transações em um bloco ficam balanceadas da mesma maneira que um livro de registros contáveis faz, só que digitalmente.
No caso das empresas de mídia, o blockchain pode controlar cada uma das transações de conteúdo entre anunciantes, agências de propaganda, agências de pesquisa de audiência, provedores OTT, provedores de conteúdo e as emissoras de televisão. A criptografia que é usada no blockchain garante que os participantes da rede vejam apenas as partes do livro de registro de movimentações que sejam relevantes para cada um. Também permite que as transações sejam seguras, autenticadas e verificáveis. Essas transações são chamadas de Smart Contracts, ou seja, contratos inteligentes.
Segundo a apresentação da IBM o blockchain permitirá que as empresas mídia operem de maneira muito mais eficaz em sua rede de negócios. O blockchain, entre outras vantagens, permitirá a economia de tempo: o tempo de transação será reduzido de dias para quase instantâneo; redução de custos: o custo de intermediários são removidos ou eliminados; garantia da qualidade dos dados: a precisão dos dados é mantida durante todas as transações pelo blockchain; redução do risco: adulteração, fraude e crimes eletrônicos são reduzidos; aumentar a confiança: os processos são compartilhados e a manutenção de registros são visíveis para todas as partes interessadas por meio de um processo de consenso. São várias aplicações na produção e distribuição de mídia que estão em teste, desde garantir que o usuário que esteja assistindo ao conteúdo tenha realmente o direito de assistir, ou que uma agência de pesquisa de audiência veja em tempo real o que está sendo consumido e onde, sem com isso acessar outros dados indevidamente.

O novo mundo das “smart-coisas” que consomem mídia: Smartdevices, Assistentes de Voz e outros
Para quem gosta da franquia de filmes Guerra nas Estrelas, conhece bem os personagens inteligentes, com personalidade própria e muito comunicativos, o primeiro o robô R2-D2 e depois o seu companheiro androide C-3PO. No filme eles são máquinas artificiais que interagem por voz e executam algumas ações. No mundo real, o processamento de linguagem natural são sistemas de computação muito complexos, porém já estudados a muitos anos e que evoluíram muito. Por meio de pesada computação, ferramentas de inteligência artificial e de linguística convertem uma linguagem natural humana em banco de dados e vice-versa. Ou seja, por meio da voz como interface homem-máquina conseguimos interagir com estes dispositivos.

Os robôs que falam. Na esquerda R2-D2,
ao centro Amazon Echo e na direita C-3PO

Os primeiros “assistentes pessoais”, ou seja, dispositivos capazes de nos entender e de executar tarefas, foram os smartphones, a famosa assistente Siri nos telefones da Apple e o Google Assistant nos telefones com Android da Google fazem tarefas dentro dos aplicativos dos nossos telefones celulares. Na evolução dos “assistentes pessoais” nos Estados Unidos já é muito famoso o Amazon Echo e a sua voz Alexa, lançado pela Amazon como um smartspeaker, ou seja, uma pequena caixa de som que entende a fala responde em voz e executa tarefas. A Google não ficou para trás e lançou recentemente o Google Home, também uma caixa de som e com o mesmo propósito da Amazon Echo e que está ganhando espaço.
Além da caixa de som, a Amazon já lançou no mercado americano a Amazon Echo Show com um display de 7 polegadas sensível ao toque. É o mesmo conceito, porém o segundo dispositivo toca vídeos e dá as respostas de forma visual também.
Mas como estes dispositivos podem se tornar os chamados Voice Assistants ou Home Assistants? Acontece que atrás dessas caixinhas que falam tem um interessante ecossistema na nuvem que além do reconhecimento da linguagem natural e de inteligência artificial, permite que dispositivos de terceiros sejam controlados e se comuniquem com o sistema.
Ao dar um comando para a caixa de som como “Ligue as luzes” a mensagem vai para os servidores da Amazon na nuvem, é transformada em banco de dados e se conecta por meio de um aplicativo (chamado de “Skills” no Amazon Echo ou chamado de “Actions” no Google Assistant) que foi instalado pelo usuário e que controlará no caso as lâmpadas da casa por um comando que retorna pela Internet, pella nuvem do dispositivo do terceiro. Já existem dispositivos controláveis de todos os tipos para automação residencial como lâmpadas, termostatos, cafeteiras, portas, cortinas, entre muitos outros.
Mas o que estas “smart-coisas” tem a ver com o mundo da mídia? Para entender basta ver os números no mercado americano sobre o comportamento das pessoas utilizam estes dispositivos.
Claro que existe um grande uso para controlar dispositivos em casa (a lâmpada, o arcondicionado, a geladeira ou a cafeteira, por exemplo). Mas as pessoas têm uma grande demanda por notícias e em média 60% das pessoas perguntam notícias ou algum conteúdo nos seus dispositivos. Vários tipos de conteúdo, como os marcados em vermelho no gráfico anterior, são grandes oportunidades para os produtores de áudio e vídeo. Esse novo mundo das “smartcoisas” consome muita mídia. É claro, é preciso adaptar o conteúdo em tamanho e forma, desenvolver o aplicativo (Skills ou Actions) para cada ecossistema e deixá-lo acessível em uma nuvem própria.
Já são perto de 20% dos adultos americanos que já possuem um smartspeaker, ou seja, aproximadamente 47 milhões de usuários nesta plataforma. A grande maioria são dispositivos da Amazon, a primeira neste conceito, cerca de 71%, em segundo a Google com 18,4% e crescendo e o restante são outras marcas menores. Um conteúdo muito utilizado é uma espécie de resumo de notícias chamados de Flash Briefings, produzidos pelo jornalismo de rádio, televisão e jornal impresso, e que cresceram cerca de 300% em acesso nos últimos 12 meses. Já existem emissoras de televisão com conteúdo exclusivo para a Amazon Echo Show, aquela que possui uma tela de vídeo.
As emissoras de rádio possuem Skills tanto para ouvir a programação ao vivo ou com programas no estilo podcast. Muitos especialistas reconhecem que a interface de usuário do futuro para a maioria das máquinas será por voz. A mídia local terá grande demanda nesses dispositivos e em breve estes dispositivos estarão disponíveis também no Brasil na Língua Portuguesa.

Emerson Weirich Emerson Weirich
Emerson Weirich, é gerente de Projetos e Desenvolvimento da EBC e diretor Regional Centro Oeste da SET. Contato: [email protected]