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Interiorização da TV Digital no Brasil

SET EXPO 2018 – O olhar dos especialistas da SET

© Foto: José Frederico Rehme

Compartilhamento de infraestrutura para redução de custos operacionais e de investimentos; uso intenso  e pleno das possibilidades de uma tecnologia diferenciada; e novo modelo de negócios debatido em São Paulo

por José Frederico Rehme

Para a complementação da cobertura de TV Digital no Brasil, para os últimos 15 a 20% da população, entre 30 a 40 milhões de cidadãos espalhados em quase 4.000 municípios com menos de 20.000 habitantes, precisamos abrir mãos de alguns preconceitos, hábitos, modos de fazer, tradições, orgulhos, competições, regulamentos, e aceitar novos.
Três dos principais aspectos e paradigmas podem ser:
usufruir da tecnologia digital. É diferente, mais flexível, com peculiaridades positivas e negativas em relação à enraizada em nós técnica de distribuição analógica. A boa engenharia, neste caso, sugere adaptação, substituição do modo de projetar, calcular, implementar, negociar, gerir, de forma ajustada às limitações e possibilidades do processo digital;
foco no usuário final, não no processo. Isso significa que o que devemos buscar é a possibilidade e facilidade de recepção, e não concentrar-nos na transmissão. Pode parecer que é a mesma coisa, mas não é.
A recepção depende da existência do sinal, ou seja, da transmissão, mas o foco nos parâmetros de transmissão não necessariamente favorece uma boa recepção. Por exemplo, não é necessário trabalhar e investir para se obter uma MER muito elevada ou grande potência na transmissão, mas sim para garantir uma MER com margem e um nível suficientes na recepção.
o ótimo é inimigo do bom. Entre o não ofertar, ou então oferecer um sinal com características menos rígidas, não há discordância que a segunda opção é a de interesse do telespectador (e, por conseguinte, do modelo de negócio TV aberta). Um sistema de transmissão (torre, antena, recepção de chegada de sinal, transmissor e acessórios) que tenha um tempo médio entre falhas de um ano, e um tempo médio para reparo (incluídos deslocamentos, perdas de tempo por condições ambientais ou de acesso…) de 48 horas (alto, não?), tem uma confiabilidade e disponibilidade da ordem de 99,5%. Provavelmente bastante acima da disponibilidade de um sistema DTH via satélite ou baseado em cabeamento, ambos, muito custosos para a ponta receptora. Certamente esse índice acima de 99% é plenamente satisfatório para o telespectador destas cidades pequenas, que poderá contar com sinal de mesma, igual, idêntica qualidade que o morador da capital do seu Estado.

Retransmissora no interior do Brasil
© Foto: José Frederico Rehme

Estima-se como factível um investimento menor de 150 mil reais por site para um grupo de 1000 cidades, carregando até quatro programações alocadas em quatro canais de 6 MHz. Menos de 40 mil reais por sinal/investidor/player/emissora. Portanto, em uma conta ainda inicial, sem a consideração de otimizações possíveis pela escala, escolha de trajetos e deslocamento de equipes, 150 milhões de reais a cada 1000 cidades, e certamente menos de 500 milhões de reais para atendimento dos 4000 municípios.
A manutenção/operação desse sistema, incluídas as contas de energia, telemetria, atendimento técnico, aluguel de área, reforma periódica da infraestrutura, substituição por obsolescência, será menor que 10 mil reais/mês/site, ou R$ 2.500 /mês/emissora.
Muitas destas cidades, na época da explosão do UHF e interiorização da TV analógica, nos anos de 1980, foram atendidas e bancadas por investimentos ou manutenção de Prefeituras ou entidades municipais ou regionais. Esse modelo hoje é inviável porque:
— Muitas, a maioria dessas entidades, não se sustentam para seus propósitos mínimos e naturais;
— A Lei de Responsabilidade Fiscal não permite extrapolações;
— Moralmente, esse tipo de aplicação de recursos públicos, em detrimento de outros, soa ação inadequada, ou, no mínimo, eleitoreira;
— Não garante isonomia ou independência para notícias e veiculação de conteúdos isentos e construtivos para a sociedade;
— Não parece justo o uso de recursos públicos para algo que certamente reverte em resultados financeiros para os detentores da programação.
Lembrando a importância da TV aberta no Brasil, e na modalidade de difusão broadcast, como a única capaz de oferecer informação, cultura, entretenimento e integração pela comunicação para boa parte dos brasileiros, pode-se dizer que mesmo nestas cidades pequenas, basta um real por mês por habitante impactado para promover a sua implantação. Desta forma, é necessário discutir e rapidamente viabilizar algum modelo ou estratégia de implantação envolvendo emissoras, fornecedores de equipamentos, prestadores de serviços, concessionárias de energia, órgãos regulado es oficiais. O Fórum de TV digital, eventualmente suportado tecnicamente pela SET, tendo ainda a ABERT e Abratel como parceiras, parece ser o ambiente propício para tais definições. Algumas premissas ou tópicos que podem ser usados como condições de contorno ou limitadores do objeto e amplitude das resoluções:
— Respeito às limitações técnicas; (potências reduzidas, o suficiente para cobrir a região e evitar o trancamento do espectro para outras localidades);
— Critério de escolha / aceitação dos condôminos do(s) site(s) compartilhado(s); (entram todos os detentores de licença e pagam por adesão, recebem subsídio e contribuem com parte, recebem financiamento e restituem em cinco anos, ou apenas se responsabilizam pelo pagamento mensal?);
— Revisão da regra e dos cálculos para distribuição e planejamento de uso do espectro;
— Em caso de não interesse por parte dos tradicionais detentores das programações, esta licença poderia ser repassada a entidade nova, com flexibilidade para buscar um parceiro financiador local, por exemplo?
Fica como última mensagem para reflexão que as técnicas, regras, recursos financeiros e mão de obra para a conclusão deste processo, tão importante para a cidadania, já existem. Estamos falando de presente/passado. Esta equação relativamente simples precisa ser tratada ao mesmo tempo (pelos mesmos ou outros de nós), em que nos preocupamos com o presente/futuro da TV Digital (ou, se preferirmos, oferta de conteúdo multimídia): UHD, imersiva, móvel, carregada de metadados e aditivos.

José Frederico Rehme José Frederico Rehme
José Frederico Rehme (GTD, RCI, UP, SET) é mestre em Ciências (2007) e engenheiro Eletricista pela UTFPR (1990). Diretor de Engenharia na RCI, Diretor da GTD Global, professor nos cursos de Engenharia Elétrica e Engenharia de Energia na UP – Universidade Positivo, Curitiba; Diretor de Ensino da SET desde 2010. Contato: [email protected]