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IBC 2018: O olhar dos brasileiros na feira de Amsterdã

IBC 2018 Parte II

Visitantes e expositores analisam exposição e avançam tendências para 2019

por Fernando Moura

O IBC contou com 1.700 expositores, mais de 400 sessões de capacitação e mais de 700 representantes de imprensa

O mês de setembro é sempre um período de inovação na indústria europeia e mundial devido à realização do IBC, o maior encontro de tecnologia audiovisual do velho mundo. Velho apenas em história, porque o encontro organizado por britânicos na capital holandesa mostra o que há de melhor em termos tecnológicos, e intelectuais que se debruçam sobre tecnologia, produção de conteúdo e tendências da indústria audiovisual.
Na edição 2018, a feira contou com 1.700 expositores, mais de 400 sessões de capacitação e mais de 700 representantes de imprensa. Foram mais de 57 mil profissionais de mídia e entretenimento de mais de 170 países, entre os quais alguns brasileiros. A Revista da SET conversou com algum dos players e integradores do mercado brasileiro que estiveram em Amsterdã com o intuito de saber o que acharam e quais podem ser as inovações tecnológicas a serem implementadas na indústria audiovisual brasileira.
Felipe Andrade, gerente de Vendas da CIS Group no Brasil, destacou a aceitação do mercado do protocolo NDI (Network Device Interface), com uma quantidade impressionante de estandes demonstrando soluções de integração NDI em seus produtos. “Em segundo lugar, mencionaria as soluções usando Inteligência Artificial (IA). A AVID, por exemplo, mostrou o uso de IA em sua solução de MAM em parceria com a Microsoft Azure, usando os algoritmos de aprendizado de máquina de detecção facial, reconhecimento de cena e fala em texto, para indexar automaticamente o conteúdo”.
Análise similar ao de Carlos Capelão, engenheiro da Phase, que disse à Revista da SET que a feira em Amsterdã, como esperado, evidenciou a revolução que atingiu o setor de vídeo, especialmente nos últimos dois anos, baseada em virtualização e digitalização. “As empresas representadas pela Phase apresentaram as suas infraestruturas de vídeo em IP como padrão. O SDI considerado apenas para pequenos sistemas ou aplicações específicas. Esta migração para a IP propicia uma virtualização das funções tradicionais de vídeo e possibilita sua operação na nuvem. Neste setor a nossa parceira Evertz, mais uma vez, demonstrou sua absoluta liderança, com mais de 400 sistemas IP/SDVN implantados e o maior sistema de playout na nuvem já implantado no mundo”.
Este tema também chamou a atenção de Fernando Lopez, gerente de Vendas para o Brasil da Lawo, para quem o destaque passa pela “mudança de SDI para IP e a produção remota e descentralizada”.
Assim, Erick Soares, especialista em tecnologia da Sony Brasil, disse que a empresa nipônica apresentou serviços e tecnologias totalmente integrados, de ponta a ponta, que capacitam as empresas de mídia a criam conteúdo mais incrível e audiências mais engajadas, mais lucrativas. “Ouvimos e trabalhamos de forma colaborativa com nossos clientes para criar soluções que abordam ativamente os desafios que as empresas de mídia enfrentam hoje e tratamos de fornece-los com as tecnologias que precisam para tornar o amanhã uma realidade”.
Soares afirmou que é cada vez mais importante “entender as aspirações e demandas das organizações de mídia e criadores de conteúdo. Nosso tema de “Go Make Tomorrow” encapsula nossa motivação e visão para ajudá-los a perceber o potencial comercial e criativo de seu conteúdo na era pós-digital”.

Mercado Brasileiro e novas parcerias
Os players e integradores brasileiros se mostraram confiantes com o resultado da feira. Eliésio Silva Júnior, gerente de Ventas da Seal Broadcast and Content, afirmou à reportagem que as impressões do IBC foram muito positivas. “Estivemos com muitos clientes este ano, e retomando muitos projetos, já que vemos um ambiente de negócios mais favorável, e temos boas perspectivas para a volta do crescimento da economia e consolidação de muitas novas tecnologias”. Amaury Pereira da Silva Filho, gerente Regional de Vendas da Ross Video, disse que “o IBC é nosso segundo maior evento do ano, e por conta disso reservamos algumas de suas novidades para esta grande feira. O IBC é um evento mais focado para o mercado europeu, porém clientes latino-americanos também marcaram presença importante em nosso estande, o que é importante para nós”.

Em termos de parcerias, a feira foi boa. Lopez disse à reportagem que a empresa está prestes a “anunciar dois novos parceiros para o mercado Brasileiro”. Capelão afirmou que a “Phase está desenvolvendo um interessante grupo de novas parcerias originadas em contatos feitos no IBC”. Eliésio disse que a Seal fechou parcerias com a Synamedias e Root6. Soares disse que “houve parcerias às vésperas do IBC” para a parte de produção IP com fabricantes como Cisco, Arista, Juniper e Huawei. E na parte de áudio, parceria com “a Yamaha para integração dos receptores de microfone sem fio da série digital DWX com mixers Yamaha CL e QL”.
Andrade avançou que a CIS Group formalizou parceria com “a Newtek como representante exclusivo das soluções IP no mercado brasileiro. Também fizemos parceria com a NewsCaster, Sienna, SNS e TVU. Isso nos permite utilizar nossos conhecimentos em IP para integrar soluções com todas estas marcas e oferecer soluções end-to-end aos nossos clientes, como a CIS sempre fez”.
Assim, disse o executivo, outra aposta está nas soluções da TVU. “Vimos no IBC aplicações para produção remota, que vem sendo um tópico bastante discutido entre os broadcasters. Com um transmissor e um receptor podemos mandar sinais de até 6 câmeras com Tally, controle, intercom etc., usando uma taxa de 36Mb/s em compressão HEVC com delay menor de 1 segundo. Isso permite produções remotas utilizando conexão de internet ou 4G em locais onde a fibra não é uma possibilidade. Além disso, estamos estudando a possibilidade de integrar as mochilas TVU nas soluções da Glookast e da AVID, trazendo de forma automática e bidirecional os metadados das mochilas para os sistemas de jornalismo e produção”.
Capelão destacou a automação de controle de qualidade de programação em arquivo, e a monitoração e controle de sistemas de produção, contribuição e distribuição. “Hoje com a enorme diversidade de conteúdo e de meios de distribuição, principalmente OTTs, já não se pode sobreviver sem estas ferramentas de software. Aqui a nossa parceira Interra Systems se consagrou líder de mercado com seu aplicativo BATON de QC e seu sistema ORION de Monitoração e Controle tanto para fluxos tradicionais como os baseados em OTT”.
Outra área de destaque, comentou Capelão, foi a automação de produção. “Nossa parceira Telemetrics apresentou uma nova linha de pedestais e cabeças robotizadas que facilitam e agilizam o processo de produção. Por último, as infraestruturas para OTT, que tem sido o nosso novo foco de atividades na Phase. Um mundo totalmente novo que veio para ficar”.

Novidades
Os visitantes puderam descobrir as mais recentes inovações da Sony, disse Soares, nas quais se inclui uma nova gama de câmeras de sistema ao vivo, nova tecnologia de painel LCD 4K HDR Trimaster HX para monitor de referência, o lançamento dos serviços focados em mídias para um mundo multiplataforma, bem como atualizações para muitas soluções existentes, como a câmera Venice, e portfólio da Sony de soluções IP com expansão do suporte ao ST2110.

Eliésio Silva Júnior, gerente de Vendas da Seal Broadcast and Content, afirmou à reportagem que as impressões do IBC foram muito positivas

Entre os principais destaques da Sony para o IBC 2018, lançamentos para produções 4K/HDR/IP e os seus fluxos de trabalho, como câmeras de estúdio como a nova linha HDC-3100, HDC-3500 e HDC-P50; nova tecnologia Trimaster HX com o novo moni-tor BVM-HX310; expansão da linha de switchers XVS para produção ao vivo com o novo lançamento XVS-9000, bem como interfaces 12G-SDI e expansão do suporte ao ST2110 com interfaces em 40Gbps e 100Gbps e o sistema FMS (Facility Management System) de gerenciamento e orquestração da plataforma IP. Ainda, expansão e foco em soluções e serviços para o mercado de produção, como serviços de nuvem para armazenamento e produção compartilhada, como o Sony Ci; serviços de nuvem para gerenciamento da mídia e distribuição para plataformas de conteúdo, monetização, como o Sony Ven.ue; e serviços de nuvem para produção, contribuição e transmissão compartilhada de jornalismo, como o XDCAM Air.
Erick Soares afirmou que para o mercado brasileiro “todos os lançamentos têm um apelo de aplicação e demanda que já é realidade no nosso mercado. Desde câmeras compactas para produção 4K/HDR, como câmeras de estúdios em HD/4K/HDR, e até os sistemas de produção IP para atender à crescente demanda de infraestrutura para as novas instalações de projetos de clientes em curso com um foco crescente em infraestruturas para produção remota. Além disso, o crescente portfólio de serviços e ofertas baseadas em nuvem, nas mais variadas áreas, desde captação de conteúdo até a produção ao vivo, é uma nova realidade que passa a ser demandada cada vez mais em nosso mercado”.
Eliésio Silva Júnior referiu que muitas das novidades “podem ser utilizadas no mercado brasileiro que, por sinal, está em uptodate em relação às melhores práticas à tecnologia e ambientes operacionais. Assim, destacaria solução aiWARE da Veritone; o ContentAgent da Root6. O Channelmaker da wTVision. O Stornext da Quantum. A plataforma Orbit da Grass Valley; e o Virtual Encoder e Multplex (Linear e OTT) da Synamedia”.
Sérgio Constantino, gerente Geral da Panasonic do Brasil, Media Entertainment BD afirmou que entre os principais lançamentos da empresa, vale ressaltar a nova PTZ 4K AW-UE150 ou AW-RP150 com sensor de 1”, e vários tipos de interface de sinais que inclui um novo painel de controle; e a AJ-PX5100, uma nova câmera P2HD de ombro, que vem substituir a AJ -PX5000 “tendo como diferencial suporte ao vídeo HD-HDR e melhorias nas conectividades de rede”.

Sony avança para serviços e plataforma para produção ao vivo na nuvem com o Virtual Production Switcher e foco no acervo e preservação de conteúdo com soluções como NavigatorX e serviços de digitalização da Memnon

Amaury destacou o lançamento do Carbonite Ultra, um switcher de produção compacto e totalmente definido por software com uma capacidade de 24 entradas, expansível em até 3 ME com tamanho de 1RU. O executivo afirma que este produto “se encaixa perfeitamente a demanda de clientes exigentes por uma tecnologia de ponta, que precisam proteger o investimento para o futuro em UHD, e ainda necessitam de um custo extremamente competitivo.
O Brasil, assim como outros mercados no mundo cada vez mais necessita de produtos com custo baixo e alta tecnologia embarcada”.
“Acreditamos que todos os lançamentos têm potencial de interesse para o mercado brasileiro, visto que várias emissoras que estão planejamento a atualização do seu parque de equipamentos nos próximos anos estão focando em soluções 4K, mas que tenham aplicações imediatas e possam continuar conversando com os formatos existentes”, comentou entusiasmado, Sérgio Constantino.

A Ross Video lançou o ULTRITOUCH, um painel de 2RU programável via dashboard e Touch, flexível e capaz de se adaptar a diversos workflows

Feiras cleans e para networks
Nos últimos anos as feiras internacionais têm mudado de aspecto. Cada vez mais parecem showrooms de telas e cafés com poucos equipamentos. “Na nossa Era da virtualização, do intangível, os grandes estandes tradicionais com muitos equipamentos em demonstração estão em absoluta extinção. As feiras mais e mais se transformam em pontos de encontro para a discussão de ideias e projetos”, afirmou Capelão (Phase).
Pela sua parte, Andrade (CIS Group) afirmou que as soluções atuais “diferenciam-se quase que totalmente pela inteligência dos softwares e pelos protocolos de conexão. O hardware acaba ocupando um papel secundário na maioria das vezes, com raras exceções. Além disso, a maneira de fazer negócio no nosso mercado mudou. Hoje em dia os fabricantes precisam demonstrar qual o retorno financeiro de se investir em uma determinada solução, apresentando os riscos e os ganhos para todos os executivos envolvidos. Isso explica a quantidade cada vez menor de equipamentos nas feiras e a necessidade de atrair executivos tomadores de decisão”.
A Sony contradiz um pouco este cenário, e Erick Soares explica o porquê. “Como tradicional fabricante de soluções e produtos, nossos clientes ainda têm uma demanda de ver os produtos e testá-los ao vivo, mas a necessidade de soluções integradas, com grande parte delas fluindo para plataformas de nuvem, trazem novos modelos de abordagem e discussões com nossos clientes, com muito mais terminais e telas para as explicações e demonstrações. Assim cada vez mais há menor necessidade de equipamentos e muito mais espaço para mostrar as soluções de forma integrada em telas de computadores e dispositivos portáteis”.
Amaury (Ross Video) coincide. “É certo que cada vez mais vemos esta tendência nas feiras internacionais, porém a Ross Video, de certa forma, continua a apresentar massivamente novos produtos, equipamentos e hardware em nosso estande. A empresa investe muito em pesquisa e desenvolvimento, e o resultado é mostrado não só nas feiras, mas também nas instalações em nossos clientes ao redor do mundo”.

Panasonic lançou no IBC 2018 o sistema multicâmera 8K ROI (Region Of Interest), um novo sistema de captação para aplicação em esportes, capaz de gerar 4 imagens diferentes em FHD a partir de uma única imagem gerada por uma câmera 8K

O futuro da indústria e o modelo de negócio
Com o fim de 2018, e as profundas mudanças experimentadas pela indústria nos últimos tempos, a Revista da SET perguntou aos brasileiros que estiveram em Amsterdã como vislumbram os próximos tempos. “SDI para IP já é realidade, portanto é passado para fabricantes. O próximo é produção decentralizada usando infraestrutura da fibra”, afirmou Fernando Lopez (Lawo).
Erick Soares (Sony) disse à reportagem que “a indústria questiona o futuro da TV de forma geral, em grande parte, pelas grandes mudanças de modelo de consumo e das crescentes plataformas de distribuição baseadas em OTT. Para prosperar no ambiente de mídia atual é necessário entregar conteúdo e experiências a qualquer hora, em qualquer lugar, para uma variedade de plataformas sem precedentes. Cada vez é maior a demanda para fazê-lo de maneira eficiente, reduzindo o espaço físico ocupado, agilizando as operações e obtendo flexibilidade financeira, tudo isso sem sacrificar a qualidade”.

Canon lançou no IBC 2018 a câmera XF705 com codec HEVC/H.265 com o formato de arquivo XF-HEVC, e gravação de 10 bits 4K UHD 50P 4: 2: 2 para cartões SD

EVS e ELS apresentaram soluções para fluxos de produção de Esports em Amsterdã

Por este motivo, disse o executivo, “o nosso enfoque é combinar tecnologias e know-how exclusivo em conteúdo e produção, quer seja em HD, 4K, SDR, HDR ou UHD, com inovações em computação em nuvem, software como serviço e plataforma como serviço. Dessa forma, estamos focando em impulsionar maior eficiência para nossos clientes e para a indústria que vive esse novo desafio”.
Felipe Andrade (CIS Group) coincide em parte com Soares, afirmando que “acredita que a TV aberta no Brasil vai continuar forte por muitos anos, tanto pela questão geográfica, quanto pela cultura do brasileiro. Mas nossa realidade hoje é bem diferente. Estamos vivendo uma indústria em plena transformação. As emissoras estão tendo que repensar seus modelos de negócios, já que agora a receita publicitária está dispersa em muitos outros canais e plataformas, diluindo o fluxo de receita tradicional. Para criar valor e compensar as perdas, estão investindo na produção de conteúdo próprio e distribuição multiplataforma”.
Pela sua parte, Amaury (Ross Video) comentou que o mercado de mídia como um todo passa por mudanças, e “cada vez mais exige eficiência na produção de conteúdo, seja utilizando sistemas mais automatizados, seja melhorando seu fluxo de trabalho com soluções mais inteligentes e mais baratas. Com isso, os provedores de tecnologia tem o desafio de lançar ano a ano soluções com fluxo de trabalho mais integrado e com um custo cada vez menor para seus clientes. A Ross Video está extremamente engajada nesta tendência, prova disto é seu crescimento neste mercado consecutivamente nos últimos 26 anos. Ano a ano lançamos soluções de alta performance, com custos cada vez mais baixos. Há diversas discussões em torno do futuro da TV, porém uma coisa é certa, a produção de conteúdo só tende a aumentar, e a Ross Video está preparada para atender a demanda cada vez mais crescente e exigente”.
No mesmo sentido, Eliésio (Seal and Content) disse que o modelo de negócio broadcast “está se modificando rapidamente, para um novo modelo no qual estão incluídas todas as telas (LCD, HD e UHD). Tecnologias multiplataformas com sinais lineares e com Average Bitrate (ABR) são um caminho sem volta. Isso irá viabilizar novas receitas e disponibilização de mais conteúdos dedicados a nichos específicos”.
Assim, fechando as conversas com a Revista da SET, Capelão (Phase) disse que “melhorando a economia brasileira, que como todos esperamos melhorará, teremos à nossa frente uma infinidade de novas oportunidades e desafios profissionais nos próximos meses”.