• PT
  • EN

Grandes amigos, grandes programas

Memória da Radiodifusão

A história de uma dupla inesquecível do rádio brasileiro

por Elmo Francfort

O ano de 2018 terminou com um presente para os amantes do rádio. Claudio Junqueira, também profissional da área, lançou a biografia de José Paulo de Andrade, grande nome da Rádio Bandeirantes (em São Paulo, 804 AM / 90,9 FM). “Esse Gato Ninguém Segura” (Editora Letras do Pensamento) conta principalmente a história do “Zé” Paulo no programa “O Pulo do Gato”, há 45 anos no ar ininterruptamente (desde 2 de abril de 1973) – quase todos com ele na apresentação, também pela RB. Ao mesmo tempo, um livro como esses, que está recheado de ótimas histórias sobre nossa radiodifusão, se explana sobre a carreira de muitos outros nomes da área. Gente como Osmar Santos, Alexandre Kadunc, Gióia Júnior, João Jorge Saad, Joelmir Beting e, especialmente, o grande parceiro de José Paulo de Andrade: Salomão Ésper.

Salomão Ésper

Salomão e José Paulo de Andrade fizeram das manhãs da Rádio Bandeirantes um espaço agradável para o ouvinte se entreter e informar. Estão juntos há décadas, mas principalmente desde 18 de abril de 1978 quando juntos, ao lado de Joelmir Beting, inauguraram o matutino “Jornal Gente”. Os três sempre fizeram questão de afirmar que após o falecimento do radialista Vicente Leporace, dias antes (que comandava no horário o programa “O Trabuco”) precisou de três para substitui-lo, devido sua importância. Então o “Jornal Gente” trilhou uma história duradoura, com várias composições de apresentadores, sendo que Joelmir Beting foi um dos apresentadores que esteve lá, enquanto trabalhou no Grupo Bandeirantes de Comunicação e, após uma duradoura passagem pela Rede Globo, retornou ao grupo e ao lado dos colegas José Paulo de Andrade e Salomão Ésper.
Tivemos também Maria Lydia, Fábio Pannunzio, Rafael Colombo (ainda hoje no programa) e muitos outros. Só que a dupla, que também esteve presente na formação da TV Bandeirantes, sempre se manteve.
Nesta sábado, 9 de fevereiro, Salomão então se despediu dos microfones do “Jornal Gente”. Disse estar se aposentando de uma apresentação diária e contínua que, para quem acumula anos de dedicação ao rádio, pesa (detalhe: Salomão começou na Rádio Cruzeiro do Sul, em 1948). É um ritmo intenso, cansativo, mas ao mesmo tempo que mantém uma energia presente na “hard news” radiofônica. Só que como todo grande radialista, apaixonado pelo que faz, Salomão não saiu totalmente. Estreou na segunda-feira seguinte, 11 de fevereiro, sua coluna no programa “Rádio Livre”, às 16h30, também na Bandeirantes.
Outra paixão de Ésper é sua cidade natal, Santa Rita do Passa Quatro, interior de São Paulo, sempre lembrada por ele nos seus comentários. Também não esquecendo que o radialista é, fora do ar, um especialista em remédios. Certa vez, ao assistir o Domingo Espetacular (Record TV), numa matéria sobre automedicação, vi que Salomão foi o entrevistado sobre o tema. Mostrou a prateleira que tem em casa, mas preveniu que a auto-medicação, sem acompanhamento médico, era algo de grande periculosidade e que ele havia estudado muito, durante a vida, para entender as propriedades medicinais da sua “farmácia” particular – “receita, só com auxílio médico”, advertiu. Outra marca de Salomão é sua dicção e jeito de falar. Lembra muito os antigos radialistas, cujo “R” era “érrrre”, não a dicção hoje mais comedida, com um som mais anasalado desta letra. Lembro que uma vez, na época em que trabalhava no Museu da TV, Salomão me ligou dizendo que sua esposa estava na porta da Associação Cultural para receber um diploma que ele não pode estar presente na festividade de entrega. Eu respondi: “Tudo bem, Salomão, já vou atende-la”. E ele: “Como sabe que sou eu?” Disse que além dos anos como ouvinte de seus programas, sua voz era única. Em outra oportunidade, durante a cerimônia pelos 90 Anos do Rádio no Brasil (2012), na Fundação Cásper Líbero, fui entregar a medalha comemorativa à Vida Alves, minha chefe e amiga, ex-colega de Salomão no rádio, a quem devo muito na minha formação. Emocionado naquele momento, Ésper a meu lado e de Vida, me disse ao microfone: “Elmo, há lágrimas que caem dos olhos, mas há outras que vem do coração”. Nunca mais esqueci disso. É assim também, dessa química e carinho entre colegas de área, que vemos a ligação se estender entre radialistas e espectadores.

José Paulo de Andrade

Falando de seu colega, José Paulo de Andrade, também aparece na memoria, uma outra passagem. Numa outra festividade, em homenagem aos profissionais que dignificam o rádio e o telejornalismo, Zé Paulo – ao ver Maurício Loureiro Gama (apresentador do primeiro telejornal do país, de 1950, “Imagens do Dia” e o primeiro vespertino, o “Edição Extra”, ambos na TV Tupi de São Paulo) na plateia: “Eu estou aqui recebendo esse prêmio, mas quem realmente merece são pessoas como o Mauricio e Murillo Antunes Alves, nossos professores”. Claro, eles também haviam sido premiados naquele dia, mas o respeito dele aos radialistas mais antigos é algo louvável. Não podemos seguir para o futuro sem respeitar tudo que foi construído e aos profissionais que edificaram nossa área como todos eles, incluindo essa dupla José Paulo de Andrade e Salomão Ésper. Por isso, ao se despedir do “Jornal Gente”, Ésper encerra uma parceria de muitas décadas no ar, mas que com certeza continuará nos bastidores da Bandeirantes, como também na vida. Não teve uma vez, na ausência de um ou de outro, que eles mandaram “boa recuperação”, “boas férias”, “volte logo”. Amigos além das ondas do rádio e da televisão (estiveram juntos também na TV Bandeirantes em “Titulares da Notícia” e “Acontece”, este sendo uma versão do “Gente” na televisão).
A essa dupla, também, devo muito. Sempre digo que meu padrinho profissional é José Paulo de Andrade, pelo sempre incentivo que me deu, desde os primeiros passos, lendo pautas que enviava para o quadro a “Hora do Café” e onde realmente descobri realmente que era radiodifusão a minha praia. Incentivo pelo “Pulo do Gato”, mas também pelo “Gente”. Mas se ele é um padrinho, Salomão pode se considerar outro, sempre também apoiando minhas iniciativas. Assim como eu muitos novos profissionais de rádio e de televisão se iniciaram com o apoio dessa dupla. Sejam ouvintes que viraram profissionais, como estudantes de rádio e TV que também se encontraram graças ao apoio desses dois grandes “professores”, assim como Zé Paulo mencionou.
Vai fazer muita falta no ar essa dupla, mas quem sabe no futuro ainda tenham surpresas e um retorno da parceria, seja no “Gente”, no “Rádio Livre” ou em outros programas, como transmissões especiais (eleições, por exemplo) possa acontecer novamente. Que ouçamos novamente lembranças de dois jovens formados na faculdade de Direito do Largo de São Francisco, que contam histórias de uma São Paulo e um país que não existe mais – e que pelas ondas da radiodifusão noticiaram fato a fato), tempos de Rádio América e de uma Bandeirantes na Rua Paula Souza, antes do “Edifício Radiantes”, no Morumbi, sempre tão lembrada por eles, com carinho. A nossa radiodifusão até hoje se mantém com esse bom clima, graças a amizades como essa, que vão muito além do rádio e da televisão.
Para encerrar, na edição posterior à morte de Joelmir Beting, em 2012, os dois fizeram uma homenagem ao colega com a presença do filho, o radialista Mauro Beting. Após ouvir gravações antigas de Joelmir naquele mesmo “Jornal Gente”, disse algo como: “É tão estranho, mas é tão mágico o rádio. Meu pai parece que continua vivo e presente ao ouvir sua voz”. Na memória ou nas gravações da dupla, teremos sempre preservados aquele espírito de um rádio feito por amigos, onde o ouvinte faz parte dessa conversa.

 

Elmo Francfort é radialista, jornalista, professor e coordenador do curso de Rádio, TV e Internet da Universidade Anhembi Morumbi, como também diretor do Memória da Mídia (www.memoriadamidia.com.br). É Mestre e pesquisa comunicação desde os anos 1990. Francfort é autor de diversas obras sobre história da mídia e participa dos eventos da SET desde 1998. Escreva-me: [email protected]