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Globo vira Media Tech Company

Mercado de TV paga tenta reagir à crise econômica que provocou a perda de mais de um milhão de clientes no último ano, e mostra alternativas tecnológicas  para reativar a demanda. Globosat  se posiciona como uma empresa  de conteúdos baseada em tecnologia

por Fernando Moura, em São Paulo

O PayTV Forum realizado na capital paulista no fim de julho analisou o mercado de TV paga no Brasil e como este se posiciona frente às novas formas de distribuição audiovisual. O mercado sofre uma retração que chega aos 15% da base de clientes em relação a 2015, quando ainda crescia. No entanto, a luta entre operadoras, programadoras e serviços de streaming continua.
Nesse sentido, dos dois dias de palestras parece ter ficado claro que as operadoras, programadoras e canais de TV paga estão mudando a forma de encarar o negócio e também a forma como se posicionam nele, e os executivos da Globosat afirmam que a “TV é o que o cliente quer”.
De fato, a disrupção que a Globo tem mostrado publicamente nos últimos tempos é notória e, nesse caminho, a Globosat avança ainda mais. Para Alberto Pecegueiro, diretor geral da programadora, o cenário “implica riscos, mas ninguém pode ficar parado”. O executivo diz que está na hora de retirar do nome da empresa o “sat” porque hoje ela produz conteúdos além do satélite.
Para Pecegueiro a tecnologia é fundamental, desde a sua ótica, o caminho da Globo é de mudança, não só neste aspecto, mas também no posicionamento estratégico. Segundo ele, hoje a empresa deixou de ser uma empresa de mídia tradicional e as de tecnologia deixaram de ser apenas do setor. Isso fez com que “as empresas de tecnologia começassem a produzir, programar e distribuir conteúdo, enquanto empresas de mídia passassem a investir em tecnologia como meio de suporte” para continuar produzindo conteúdos. Por este motivo, reforçou o executivo, “as empresas evoluíram e se tornaram Media Tech Companies, como Amazon, Disney, Google, Facebook e a própria Globo. Dentro dessas companhias, a tecnologia está relacionada com todas as áreas da empresa, que fica mais inteligente e competitiva”.
“Agora somos um Media Tech com foco em conteúdos onde a tecnologia é o suporte da produção”, diz o diretor da maior programadora da América Latina. Ele conta que a empresa trabalha para uma integração com tecnologias de machine learning, inteligência artificial para mudar e se transformar em uma Media Tech, onde a tecnologia, distribuição e consumo andam juntos. “Não podemos ficar amarrados ao tradicional, precisamos seguir as novas oportunidades que a tecnologia nos brinda. O segredo está em como coordenar esforços para ganhar mais eficiência e competitividade.”

O conteúdo ainda é rei
Manuel Falcão, diretor de Marketing da Globosat, disse que a TV não vai morrer, mas que ela se transformou. O futuro passa pelo trabalho em conjunto da cadeia produtiva audiovisual e compreender as suas transformações não só na produção, como no consumo. “É necessário resignificar a TV porque já não existe TV, não existe digital, existe conteúdo que pode ser acessado em diferentes devices. TV é uma experiência. TV é uma boa história”.
De fato, e em concordância como a maioria dos executivos que participaram do Forúm, Falcão acredita que os serviços OTT são complementares e não o fim da TV por assinatura. “O conteúdo da TV por assinatura é, sem dúvida alguma, muito melhor do que o do Netflix. Temos que buscar a melhor experiência”.

O que Melissa Vogel, Ceo da Kantar IBOPE Media no Brasil, reforçou: “O conteúdo inédito, ao vivo ou exclusivo, ganha relevância para o assinante de TV Paga. Existem espaços para todos os tipos de conteúdo e os nossos dados indicam que o público da TV por assinatura é cada vez mais fiel”.
Números do setor
O cenário econômico, tecnológico e regulatório foi destaque desta edição já que a TV por assinatura passa por um momento complexo, reverter a queda de quase 15% na base de clientes. Vale lembrar que na metade desta década, a ABTA (Associação Brasileira de TV por Assinatura) avançava números que permitiriam chegar aos 20 milhões de usuários. Hoje, o Brasil registrou 16.709.668 domicílios com acesso à TV por Assinatura em junho de 2019, uma redução de 1,23 milhão (-6,86%), em 12 meses, de acordo com dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).
Quase a metade dos domicílios recebeu (em junho) o serviço pelo Grupo Claro (NET), foram registrados 8.227.823 contratos (49,24% do mercado), em segundo lugar ficou a SKY, com 4.999.821 contratos (29,92% do mercado), seguidos pela Oi, com 1.584.397 contratos (9,48% do mercado) e pela Vivo com 1.460.281 contratos (8,74% do mercado).

Marco regulatório
Em um momento crítico para o setor, a Anatel entende haver restrições na oferta OTT, direta ao consumidor de canais lineares, além de que as restrições à propriedade cruzada que limitam as consolidações. Isto no meio da liminar que proibiu a Fox de continuar operando como OTT depois de a Claro interpor um recurso na Anatel porque considerou que a empresa desobedece a o artigo 5º da Lei do SeAC, que trata da propriedade cruzada entre programação e distribuição. De fato, Oscar Petersen, vice-presidente de assuntos regulatório da Claro Brasil, deixou claro que é necessário regular o setor e impedir que os canais lineares passem a ser distribuídos por streaming, porque isto configura “um serviço prestado sem autorização da Anatel”.
Para Abraão Balbino, superintendente de competição da Anatel, o tema é relevante e precisa ser finalizado nas instâncias atuais, porque, segundo ele, se o pleito vai para a Justiça pode se alastrar por anos. O superintendente acredita que é preciso a aprovação de um novo marco legal para a TV por assinatura que seja aprovado pelo Congresso Nacional e que este “trate e tenha em conta as transformações da indústria”, como, por exemplo, a distribuição dos canais por streaming e as fusões entre distribuidoras e programadoras. Balbino disse que não acredita que uma decisão da Anatel consiga, de fato, nivelar a questão. “É importante a mudança da lei para que se tenha segurança jurídica”.