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Campus Party debate futuro do audiovisual no mundo digital

Reportagem Especial

O Pavilhão de Exposições do Anhembi, em São Paulo, recebeu a 10ª edição da Campus Party Brasil, evento de tecnologia, inovação e empreendedorismo que promove debates sobre novas tecnologias, ciência e as mudanças que as próximas gerações enfrentarão

por Fernando Moura, em São Paulo

O CPBR10 teve 6.500 barracas espalhadas no Anhembi

Com seis dias de duração, o evento recebeu cerca de 90 mil visitantes, sendo 8 mil campuseiros, que tiveram acesso a mais de 700 horas de conteúdo e atividades que aconteceram praticamente 24 horas por dia, tudo ligado com acesso a internet com velocidade de até 40GBps.
A Campus Party é uma das maiores experiências  tecnológicas do mundo. Realizada desde 1997, reúne jovens geeks – sinônimo para nerd – , em um festival de inovação, criatividade, ciência, empreendedorismo e universo digital. Desde a sua primeira edição, na Espanha, cresceu e se internacionalizou, passando a ter, a partir de 2008, edições no Brasil, Inglaterra, Alemanha, Colômbia, México Equador e El Salvador.
A #CPBR10 ocupou os três pavilhões do Anhembi, o que corresponde a uma área de 77,7 mil m2 onde ficaram instalados sete palcos – Entretenimento, Criatividade (Design e Mídias Sociais), Empreendedorismo, Inovação, Ciência e o palco Principal. Ainda foram utilizados outros dois palcos que contaram com as palestras sugeridas pelos campuseiros por meio da campanha: “Vire um curador”.
“Um dos grandes objetivos desta edição foi nos aproximarmos dos campuseiros criando uma verdadeira comunidade. Para isso, criamos duas campanhas na internet: uma que estimulava os campuseiros a mandarem vídeos para nós contando como a Campus Party mudou a vida deles, e outra que era para eles justamente sugerirem palestras e conteúdos para essa décima edição. O resultado dessas campanhas foi surpreendente, o que mostrou que estamos no caminho certo”, explicou Tonico Novaes, diretor geral da Campus Party Brasil.
Novaes afirmou que a organização teve “um retorno bastante positivo dos campuseiros que lotaram os palcos e participaram intensamente de todos os workshops e atividades propostas. A 10ª edição recebeu um aumento de 73% no número de patrocinadores e parceiros em relação à edição passada”.
A CPBR10 foi marcada pelo empreendedorismo, com a participação de 160 startups que fizeram parte do programa Startup&Makers, cujo objetivo é impulsionar e capacitar jovens talentos e empreendedores que receberam mentorias, coaching e tiveram a oportunidade de conversar com investidores e diretores de grandes empresas presentes no evento, fazendo alguns negócios.
Além disso, em parceria com o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), a CPBR10 realizou este ano o The Big Hackathon, um desafio com 100 horas de duração que teve o objetivo de desenvolver soluções tecnológicas para os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) propostos pela ONU, fomentando o empreendedorismo inovador. O programa teve uma comissão organizadora, formada por especialistas em hackathon e um grupo de curadores responsáveis pela escolha dos candidatos. Mentores e especialistas de faculdades e do Sebrae fizeram parte da equipe da Campus para auxiliar os participantes.

Mundo audiovisual
Uma das palestras magistrais da CPBR10 foi a do cofundador da plataforma Netflix, Mitch Lowe, que compartilhou com os campuseiros as suas experiências empresariais. Ele disse que tudo nasce de uma pequena ideia. O atual CEO da MoviePass, serviço que oferece acesso gratuito a cinemas nos Estados Unidos, fundou a Netflix em 1998 e esteve lá até 2003, quando o serviço ainda não era de streaming de vídeo, mas alugava filmes de uma forma diferenciada, permitindo que os usuários recebessem filmes pelo correio sem data de devolução e multas por atraso.

Mais de 700 horas de conteúdo e atividades que aconteceram praticamente 24 horas por dia comemoraram os primeiros 10 anos do CPBR

A criatividade não falta e novas ideias de como usufruir da tecnologia tampouco

No CPBR10 tudo é possível, até brindar uma palestra com óculos Hololens e gravar ao mesmo tempo a plateia em VR

Celulares para selfie, Hololens, e até microfones na palestra de Rodrigo Arnaut (SET) no Campus Party 2017

Salustino Fagundes (SET) afirmou que a verdadeira revolução da TV não está na Ultra Alta Definição (UHD), mas sim no fato de as pessoas agora se conectarem e se enxergarem nos dispositivos

As rádios web são cada vez mais comuns no Brasil e no mundo. Aproveitando a conexão de até 40GBps, foram instaladas várias Webrádios na Campus Party, com transmissão ao vivo 24 horas por dia desde o Anhembi

Igor Kupstas , diretor da O2 Play, explicou como a O2 do diretor Fernando Meirelles recomenda filmes no Itunes, transformando-se no primeiro brasileiro a realizar este tipo de atividades na loja da Apple

Para Lowe, tudo tem a ver com momentos, escolhas e pessoas certas. “Criamos um lugar onde as pessoas desejavam trabalhar, e lá elas contribuíram para o sucesso porque não estavam apenas sentadas em uma cadeira, elas nos ajudaram a contribuir par ao futuro”, disse ele. E completou: “Mas, para isso, era preciso deixá-las livres e flexíveis”.
O executivo disse que por este motivo, ainda hoje, a Netflix é conhecida nos Estados Unidos por ter uma política de férias ilimitadas. “Os funcionários da empresa podem ter férias quando desejarem. Mas eles passaram a ter menos tempo de férias porque eles estavam focados na missão da empresa”
Para o executivo, a Big Data é um dos segredos da companhia. “Desde o início, mesmo antes do streaming, sabíamos que o que precisávamos era centralizar e armazenar conteúdo e colocá-lo à disposição dos consumidores”.
Lowe disse em São Paulo que uma das chaves do êxito do empreendedorismo é ser “cético”, porque, ainda que hoje os dados possam ser coletáveis, não é fundamental encarar os dados como verdades. “O empreendedor precisa ser cético e desconfiado, especialmente na interpretação de dados”.
Na palestra “Realidade Aumentada com HoloLens”, os palestrantes Rodrigo Arnaut (SET/EraTrans midia/Esconderijo das Crianças/Revista Mundo360), Pedro Zambarda (Drops de Jogos/Mundo360) , Rodrigo Terra (Era Transmídia), e Rodolfo Calabrezi (Cruel Byte) debateram 2017como o equipamento de alta tecnologia promete alterar o universo de jogos e a percepção das imagens.
Arnaut afirmou que a utilização de óculos de VR será, nos próximos anos, uma situação comum na sociedade, e o que hoje é uma tendência, se transformará em uma nova forma de olhar para as coisas. “Porque com este tipo de tecnologia estamos frente a uma nova mídia com novos elementos tecnológicos e novas ferramentas”, disse. Hoje podemos, com os óculos Hololens, gravar imagens, transmiti-las e, ao mesmo tempo, reproduzir conteúdos.
O vice-diretor de TV Paga e Novos Meios da SET explicou a diferença entre Realidade Virtual, Realidade Aumentada e Realidade Mixada, afirmando que esta última está mudando o olhar sobre o mundo porque está aproximando os usuários do “espaço digitalizado, uma transformação da segunda etapa da mudança”.
Na palestra “OTT Video Streaming: uma janela internacional para o audiovisual brasileiro”, que teve curadoria de Salustiano Fagundes (HXD Smart Solutions/SET), Igor Kupstas (O2 Play) e Janaína Castro (Fox Play), explicou aos campuseiros o novo universo que se abriu para o audiovisual brasileiro com a chegada das novas plataformas de streaming.
Fagundes, que é membro do Grupo de Pesquisa de Novas Mídias da SET, afirmou que a verdadeira revolução da TV não está na Ultra Alta Definição (UHD), mas sim no fato de as pessoas agora se conectarem e se enxergarem nos dispositivos que permitem consumir vídeo por streaming.
Isto, segundo o executivo, tem provocado nos últimos anos “rupturas significativas” nos modelos das TV tradicionais, criando a necessidade das emissoras terem novas visões “com respeito à audiência, aos produtores de conteúdos e à publicidade porque tudo está conectado e pode ser personalizado”, explicou.
Assim, referiu Fagundes, surgiram novos players e novos serviços como consequência desta revolução que está acontecendo porque as empresas têm de mudar, porque o caminho está marcado. “De fato, o futuro são as múltiplas plataformas e nele todos concorrerão com todos”, disse.Igor Kupstas, diretor da O2 Play, startup de distribuição de cinema e VOD da produtora O2 Filmes, de Fernando Meirelles, afirmou no CPBR10 que com as introdução de novas plataformas de distribuição online, a lógica de distribuição mudou radicalmente. “Já não tem de começar tudo no cinema ou na TV. Hoje é o produto que fala, não importa se é no cinema ou na plataforma. O que importa é o conteúdo e, com ele, a janela. Depende do produto, se é de massas ou de nicho. E a partir disso se avança para a distribuição”, disse. “As plataformas online nos têm permitido alcançar mercados antes quase impensáveis. O mais importante é identificar as ‘janelas’, as telas onde é possível apresentar os produtos audiovisuais”, concluiu.
O diretor da O2 afirma que a empresa funciona como “um agregador na distribuição. Uma espécie de coaching. Assim, o agregador apresenta o conteúdo para essas plataformas, faz a gestão dos direitos por territórios no VOD, realiza o repasse financeiro e administra o conteúdo”.
Janaina Castro, da FOX Brasil, foi mais longe afirmando que nas plataformas online o mantra é ‘conteúdo e a sua qualidade’. “Não importa de onde ele vem. Se ele é bom vai funcionar e temos de pensar em que plataforma colocá-lo”, disse ela.
“Porque hoje não importa a nacionalidade do conteúdo, se este funciona na programação não linear, ela vai encontrar um nicho”. E, neste ponto, ela ressalta a diferença dos canais lineares da FOX, na Fox Play: “Ao ser não linear, não precisamos começar bem, ter lançamentos exitosos. O que importa é que o conteúdo seja visto”.
Diferentemente do que algumas plataformas afirmam, na visão de Janaina, o importante é não só pensar nos algoritmos. “Se não pensar na parte de curadoria e como ela pode fazer com que o conteúdo chegue aos utilizadores não adianta nada. A lógica é de negócios, depende de onde vem o dinheiro. As janelas podem ser encurtadas ou separadas, ou juntadas dependendo do produto. O interessante do VOD é que podemos experimentar e pesquisar públicos, saber a quem interessa, de onde é, e o que quer esse usuário”.
Fagundes afirmou que o audiovisual caminha para um streaming personalizado no qual as pessoas irão assistir aos seus programas, filmes e séries favoritas na hora que quiserem. “A programação linear será uma alternativa e não uma obrigatoriedade, já que até 2020 teremos pelo menos um bilhão de TVs conectadas que permitirão que a experiência televisiva seja quase totalmente não linear”.
Isso porque a ruptura de modelos provocará mudanças na audiência, já que os consumidores estarão cada vez mais conectados e vão querer ter tudo em suas múltiplas telas. “A quantidade de horas assistindo a conteúdos online continuará crescendo, principalmente entre o público jovem e, com isso, a audiência dos canais/programas televisivos poderá ser medida em tempo real”. Neste ponto, já há mudanças na produção de conteúdos que podem ser publicados utilizando novos canais de distribuição, e assim, os consumidores poderão assistir em qualquer parte do mundo.

Fernando Carlos Moura é professor do curso de Jornalismo da Escola de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Anhembi Morumbi (UAM)