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Revista da SET: os Estados Unidos na inauguração da TV brasileira

Memória da Radiodifusão

 

Primeiros grandes encontros entre empresários das duas nações que acabaram por criar a televisão no Brasil

por Elmo Francfort

Você lê está coluna na NAB Show, no Las Vegas Convention Center em Las Vegas. Mais que um grande encontro de tecnologia, principalmente voltado à televisão, é também uma oportunidade entre muitos povos se encontrarem, tendo entre eles, um grande número de profissionais que trabalham no Brasil e nos Estados Unidos.
Nesta edição resolvi lembrar os primeiros grandes encontros entre empresários das duas nações que acabaram por criar a televisão no Brasil. Os primeiros encontros obviamente aconteceram ainda nas primeiras demonstrações do que era televisão no Brasil, ocorrida na Feira de Amostras do Rio de Janeiro, em 1939, na antiga região do Calabouço – local onde hoje opera o Aeroporto Santos Dumont (SDU). Na Feira de Amostras as empresas de rádio e outras empresas de tecnologia, de todas as partes do mundo investiram na demonstração de aparelhos que fossem “além do tempo”, portanto, desde rádios modernos até a misteriosa televisão – que a Feira Mundial de Nova York também havia aparecido com destaque, naquele mesmo ano.
O primeiro nome que podemos mencionar é o de David Sarnoff, fundador da NBC (National Broadcasting Company), sendo que liderou sua detentora, a RCA (Radio Corporation of America), de 1919 a 1970, quando se aposentou.
Se não fosse o encontro com David Sarnoff, no Rockfeller Center, talvez jamais tivéssemos televisão no Brasil. Isso porque foi com ele que Assis Chateaubriand, presidente dos Diários Associados, foi se encontrar para conhecer o novo aparelho em 1944. Foi numa conversa entre os dois que o magnata da imprensa no Brasil, detentor de um conglomerado de rádios, revistas e jornais (com a antológica Revista O Cruzeiro e a Rádio Tupi), resolveu que queria trazer a televisão a nosso país. Chatô, como era conhecido, chegou a ver não só a televisão eletrônica como experimentos em cores, que Sarnoff confirmou que estavam em teste e que não poderia comercializar. Foi até numa discussão, nada acalo-rada, que ficou decidido como o empresário paraibano traria ao Brasil a televisão. Sarnoff chegou a argumentar com o empresário brasileiro se o país teria condições de manter um engenhoso equipamento, uma vez que era caro e talvez não tivesse a mesma aceitação que os rádios tiveram no Brasil – mais baratos, mais práticos, cuja montagem e manutenção eram mais baratas que de uma emissora de televisão. Contrariado, Chateaubriand disse que era uma afronta achar que o Brasil não poderia ter televisão e, de forma visionária, não apenas comprou o desafio de adquirir uma emissora inteira – com direito até a carro de externas – como resolveu comprar uma segunda estação. Dois partes técnicos, sendo um da RCA e o outro da General Eletric (GE), “irmã” da empresa comandada por Sarnoff.

Homero Silva e Chateaubriand na inauguração da TV Tupi, ao lado do pedestal da RCA, no palco da emissora

Inicialmente a ideia foi a de que a primeira emissora fosse montada no Rio de Janeiro, então Capital Federal e local em que muitas das atividades dos Diários Associados eram centralizadas. Por fim, acabou que São Paulo foi a primeira emissora do País, após estudos internos dentro dos Diários Associados.
São Paulo em 18 de setembro de 1950 inaugurou, com equipamentos da RCA, a TV Tupi, canal 3 paulistano. Pouco tempo depois, com equipamentos da GE, foi implantada no Rio de Janeiro, em 20 de janeiro de 1951, a TV Tupi, canal 6 carioca.

David Sarnoff
Ainda sobre David Sarnoff, vale lembrar que ele não era estadunidense. O empresário nasceu na Bielorússia em 1891 e foi para Nova York em 1900. Chegou a trabalhar na empresa de Guglielmo Marconi, onde aprendeu tudo sobre telegrafia e rádio. Foi com o telégrafo que ele, na madrugada de 15 de abril 1912, recebeu os primeiros pedidos do socorro do Titanic, que afundava causando uma grande tragédia mundial. Sarnoff trabalhou por 72 horas ininterruptas na telegrafia. Infelizmente nem metade dos tripulantes do transatlântico se salvaram.
Já com o rádio, o jovem descobriu o potencial de utilizá-lo para as massas e ajudou no seu progresso, como na popularidade do meio durante o período de guerra. A esta altura já trabalhava na GE, que havia adquirido a empresa de Marconi, e fez dela a RCA. A venda de aparelhos foi intensa!
Em 1926, já na RCA, Sarnoff adquiriu sua primeira estação de rádio e lançou a NBC, sendo presidente da empresa. Foi dele o mérito também de estabelecer o padrão de transmissão em amplitude modulada (AM) no mundo todo.
No caso da televisão, Sarnoff conheceu em 1928 o engenheiro Vladimir Zworykin, que havia criado um sistema de TV eletrônica na Westinghouse. O empresário da RCA decidiu financiar e apadrinhar o projeto. Naturalmente, a RCA saiu na frente, também, na venda de televisores e logo, em 1939, durante a Feira Mundial de Nova York, lançou a NBC. Por mais que a Segunda Guerra Mundial tenha “freado” o processo de crescimento da televisão, pouco tempo depois, o processo acelerado ressurgiu. As emissoras de TV se espalharam pelo mundo todo, sendo que David Sarnoff ainda conseguiu ver o surgimento da televisão em cores, o videoteipe, e a transmissão em rede, falecendo em 1971.

Câmera RCA TK-30, iguais as utilizadas pela TV Tupi

Walther Obermüller
Outro profissional que entrou para história inaugural da televisão brasileiro foi o encarregado da RCA, enviado por Sarnoff, para ajudar na implantação da TV Tupi em São Paulo. Falo do engenheiro Walther Obermüller, diretor da NBC TV. Ele acompanhou todo processo de montagem desde o descarregamento dos equipamentos no porto de Santos em 1949, como a implantação dos equipamentos, tanto na torre do Banco do Estado de São Paulo (antigo “Banespão”, hoje “Farol Santander”, no centro da cidade), como também nas instalações da emissora na até então conhecida “Cidade do Rádio”, na Rua Professor Alfonso Bovero, no bairro do Sumaré. Ali os profissionais de rádio viram aos poucos seus espaços serem divididos com a televisão e a chegada de estudos específicos para o meio.
O campo de peteca, local de descanso, foi um dos lugares que primeiro foi extinto para abrigar o Estúdio A da TV Tupi. Obermüller estava lá, tendo todos os cuidados possíveis para que a inauguração saísse de acordo não apenas do que queria Assis Chateaubriand como também a RCA, a qual estava ali representando, como os olhos de David Sarnoff no Brasil, naquela ocasião. Foi dele, por exemplo, a indagação de quantos receptores existiam no País para que assistissem à inauguração da TV Tupi. Foi, portanto, o engenheiro que fez com que Chateaubriand se atentasse para ideia de adquirir em torno de 200 televisores e espalhá-los pela capital, para que os populares pudessem ver gratuitamente a estreia do canal 3. Afinal, quem iria ver TV sem televisor?
Há outra passagem, já no dia 18 de setembro, data da inauguração que marcou o nome de Walther Obermüller na história da televisão brasileira. Tudo estava programado e ensaiado quando no início da transmissão uma das câmeras RCA TK-30 apontou um defeito e parou de funcionar, conforme o engenheiro da TV Tupi, Jorge Edo (não, é folclore a história que Chatô batizou uma das câmeras e ela pifou… foi realmente uma falha técnica). Tenso, nervoso, ordenou o cancelamento da estreia da TV Tupi naquela noite. Acontece que o jovem Cassiano Gabus Mendes – com pouco mais de 20 anos, o primeiro operador de switcher do Brasil, e assistente do diretor-geral da emissora Dermival Costa Lima – discordou, e “bateu o pé” em relação à decisão do engenheiro. Disse que o show ia continuar com uma câmera a menos. E foi o que aconteceu. Com garra, criatividade e improviso foi ao ar o show “TV na Taba”, em que numa só noite todos os gêneros foram apresentados, da teledramaturgia ao esporte. Claro que hoje entende-se porque Cassiano foi também nosso primeiro diretor artístico, além de ser conhecido mundialmente como novelista de tramas inesquecíveis como “Que Rei Sou Eu?”, “Anjo Mau” e “Ti Ti Ti”.

“Ginga” brasileira
Naquela noite entendemos que a nossa televisão tinha que acontecer e talvez aí, quando falamos de televisão digital, justifica-se o nome de nosso middleware ser “Ginga”. Tivemos ginga desde o início, desde o primeiro momento, mas o show continuo. O que se sabe é que Whalter Obermüller desapareceu, no limite do nervosismo, e que ao final de tudo reapareceu para cumprimentar toda equipe pelo “milagre” que havia ido ao ar, sendo que testemunhos ainda afirmam que o Obermüller assistiu à televisão de um lugar, não se sabe se bar, restaurante ou padaria, sendo que estava muito alegre e aliviado porque a missão estava cumprida. E foi assim, há quase 70 anos, que dois empresários dos Estados Unidos colaboraram diretivamente na criação da televisão brasileira que junto da nossa gente foi ar e deu show.

Fontes de Pesquisa:
Assis Chateaubriand – http://www.radionors.jor.br/2013/08/farroupilha-de-flores-da-cunha-a-assis-chateaubriand.html
Câmera RCA TK-30 – https://i.pinimg.com/originals/ce/f2/71/cef271d70f9fccd1e06e1a5a039dc5fe.jpg
David Sarnoff – https://pt.wikipedia.org/wiki/David_Sarnoff#/media/
File:DavidSarnoff_1922.jpg
Homero Silva e Chateaubriand – http://www.saopauloinfoco.com.br/ wp-content/uploads/2016/04/RTEmagicC_CHATO.jpg.jpg

 

Elmo Francfort é radialista, jornalista, professor e coordenador do curso de Rádio, TV e Internet da Univer-sidade Anhembi Morumbi, como também diretor do Memória da Mídia (www.memoriadamidia.com.br). É Mestre e pesquisa comunicação desde os anos 1990. Francfort é autor de diversas obras sobre história da mídia e participa dos eventos da SET desde 1998. Escreva-me: [email protected]r