• PT
  • EN
  • ES

As novas possibilidades de uso da radiodifusão no mundo convergente

NAB 2016 – “O OLHAR DOS ESPECIALISTAS DA SET”ed160_pag46_2

 


 

por André Barbosa Filho

ed160_pag54_1A Televisão Digital Terrestre (TDT) nunca foi utilizada no mundo em sua potencialidade, razão pela qual suas facilidades foram apre-sentadas ao público apenas parcialmente, ou mesmo, “engavetadas” pela indústria de equipamentos eletroeletrônicos de recepção.
A razão da portabilidade, multiprogramação, interatividade com canal de retorno no ambiente TVD não terem sido exploradas a contento pode ser explicada por vários fatores, mas um se destaca por ser, ao certo, a raiz da questão: a avassaladora penetração da Rede Mundial e todas as suas incríveis ofertas de acesso à informação.
Apesar do fato concreto apresentar um cenário trans-formador neste inicio do século 21, onde a disseminação da Internet de Alta Velocidade passa a ocupar o protagonismo entre as redes de distribuição de conteúdos, não devem passar desapercebidos dois fatores fundamentais que explicam que este reinado não está, de modo algum, implantado e consolidado em todas as diferentes sociedades.
O primeiro, claro, diz respeito à infraestrutura que permite a oferta e o acesso à Internet Banda Larga em todo planeta, mostrando-se escalável apenas onde há renda per capita e garantia de retorno do investimento. Nas regiões onde existem bolsões de pobreza, o progresso chega devagar e para poucos, numa perversa construção que, obrigatoriamente leva à formação de contingentes de bilhões de excluídos do cenário WEB.
Em seguida, o próprio modelo econômico de entrega de conteúdos audiovisuais proposto pela tecnologia bidirecional, em IP (Internet Protocol), que privilegia a retribuição econômica pelo cidadão ao acesso da in-formação, com a expectativa de monetizar e remunerar cada contribuição ao segmento da cadeia de produção destes conteúdos, desde produtores aos empacotadores e distribuidores.Assim, o que era uma oferta gratuita de acesso (ou da gratuidade indireta, pois o preço desta oferta esta-ria embutido no produto vendido ao consumidor que, portanto, pagaria a propaganda do anunciante inseri-da na grade de programação das TVs e rádios) passa a ser diretamente pago pelo cidadão.ed160_pag54_2
Os números atuais vêm mostrando que os modelos OTT e VOD vêm sendo preferidos em detrimento dos serviços de cabo ou satélite. Este é o fenômeno “cordcutting”, pois para assinar os novos serviços dos portais “On Demand”, um número expressivo de pessoas vem cortando suas assinaturas das modalidades de TV paga com grade fixa.
Mas o mesmo não se dá com a TV Terrestre aberta e gratuita. Números recentes das agencias de pesquisa como Nielsen e Gallup mostram que em 2014, a audiência deste modelo gratuito cresceu de 9% para 17%, perfazendo um crescimento real de 90%. Por quê? Por que se utiliza esta plataforma gratuita, para transmissão de programações AO VIVO, que somam a assinatura das plataformas por demanda. São jovens, estudantes, pro-fissionais em início de carreira, grupos de baixa renda que estão a utilizar conjuntamente os serviços.
A este cenário se poderia somar outro, a disruptura. Um fator que coloca conceitos como economia de escala e processos de cauda longa em xeque, pressionados pelas formas e características da economia por nichos, posição mandatória do consumidor e oferta de dispositivos customizados.
Como conclusão, podemos dizer que os quem têm a banda larga na porta de casa, vêm escolhendo, dentre as inúmeras ofertas disponíveis, as mais econômicas e que lhes satisfaçam. Quem não tem banda larga (4,6 bilhões de pessoas em todo o mundo) tem na comunicação por radiodifusão, rádio e TV abertas, o único modo de conhecer o que passa, instruir-se e se divertir.
A TV Terrestre Digital vem chegando lentamente, vencendo preconceitos e lutando com suas próprias vísceras por se tornar o que, potencialmente, já o é: uma plataforma moderna, com facilidades que devem se ombrear a outras congêneres digitais, desde que vista pelo Poder Público e pela Sociedade não como uma tecnologia ultrapassada, o que definitivamente não o é, mas uma estrutura de informação que chega gratuitamente aos lares, e que a tornam competitiva.

ed160_pag54_3Era da Convergência
E a convergência de mídias, rapidamente, o que é? Ela surge simultaneamente com a revolução digital, que nasceu com a cultura do computador como um “mediador da comunicação”. No século passado, ele era apenas uma máquina de processar números e, de repente, na sua evolução, começa a absorver outros sistemas de linguagem. Leitor, já ouviu falar sobre o “Videotexto”? E uma espécie de a “Idade da Pedra da internet”. Nesse trabalho aconteceu uma coisa fantástica: a linguagem verbal saltou do papel para a tela eletrônica. Então, a gente mal consegue imaginar o significado que isso teve e continua tendo.
O computador absorve essa linguagem, traduz numericamente e devolve na tela pra nós exatamente na sua forma original. Você recebe a imagem como imagem, a palavra como a palavra, o som como som e o vídeo como o vídeo.
Isso é chamado de convergência das mídias, ou seja, é quando tudo converge para o computador, somada a capacidade que a máquina tem de nos devolver essas linguagens como elas são originalmente.
Henry Jenkins (2008) afirma em sua obra que esta convergência de linguagens terceira estética, por sua vez, chega munida de poderes que poderão revolucionar as ideias, o pensamento, o comportamento e a criatividade artística tanto por parte do produtor da arte quanto do receptor, que nesse momento especifico também se hibridiza em sua relação com a obra, pois, ele passa a ser ao mesmo tempo construtor, executor, emissor e receptor deste projeto artístico. “Lembrem-se disto: a convergência refere-se a um processo, não a um ponto final.”

E pensando na convergência como processo
Percebemos que os exemplos que são produzidos em coletivos como este que ora compartilhamos, são representantes desse momento de elevação, onde a ação do artista integral, e a maneira com que ele utiliza uma ferramenta reformulam toda a tradição da construção e desenvolvimento das artes em geral, como também a sua recepção em novos territórios e públicos diferenciados.ed160_pag54_4
Essa tríade — arte, tecnologia e convergência possui um caminho próspero no contexto contemporâneo. Penso que não estamos distantes ou perto dessa quebra de paradigma nas artes, mais sim, estamos dentro do próprio.
E por estarmos dentro dele, ainda relatamos a complexidade de algumas pessoas em entender que esta arte expandida não se estabelece através de uma linguagem; a coletividade e o hibridismo de várias linguagens é quem fornece os parâmetros de sua existência artística e comunicacional.
E bom que se diga que, no mundo, a plataforma de radiodifusão, com relação a projetos convergentes, nunca teve seu desenvolvimento finalizado. Não que os países como Itália, que chegou bastante longe, a França e até a Alemanha, não tivessem caminhado nesta direção há anos atrás. Esses países, por outro lado, não tiveram interesse em dar continuidade ao desenvolvimento da interatividade por radiodifusão em razão da oferta de outros serviços, naturalmente bidirecionais que consideram prioritários, como a banda larga.ed160_pag54_5
Entretanto, as noticias recém-chegadas do grande mercado tecnológico do mundo, os Estados Uni-dos, dão conta que o broadcasting está sendo visto atualmente de outra forma, não só como aquela tele-visão linear do modelo em vigor, mas usado para convergir com outras formas de plataformas digitais através, especialmente como carrier de dados e até para uso conjunto de terminais de recepção de sinais com sensores para uso no mundo IoT (internet das coisas).
A televisão analógica está em 98% dos lares e pode-remos chegar, como pretende o MiniCom, com a migração digital, a 93% em 2018 e isso significa que essas pessoas passam a ter a possibilidade de receber as informações digitais, transmitidas por broadcasting. Vamos criar um atalho para a oferta de banda larga.
E as operadoras não vão deixar de ganhar dinheiro. Ao contrário, com o modelo novo de canal de retorno, pode se ampliar para outras ofertas de pacotes. Precisamos da cooperação da iniciativa privada para isso.
Vamos deixar bem claro. Baixar aplicativos audiovisuais pela TV significa manter a primazia e o controle da transmissão pelo radiodifusor. É através do seu play-out que os dados chegarão às residências:
1. Simultaneamente — característica única da radio-difusão, a Internet não conta com esta prerrogativa;
2. Com Segurança — transmissões radiodifundidas não estão sujeitas a hackers;
3. Com Maior Uso de banda – dentro do espectro de 6Mhz o uso de apenas 0.5Mb, já seria um espaço muito superior ao oferecido nas taxas de trafego de dados por IP para transmissão de Apps negociado em nosso País;
4. Com a Negociação destes Serviços o Protagonismo é da RADIODIFUSÃO – claro que haveria que mu-dar a lei de radiodifusão neste ponto, permitindo que o radiodifusor possa criar modelos de trans-porte broadcasting para dados e não apenas para conteúdos audiovisuais.
Assim, criar-se-iam espaços de negociação para serviços interativos com canal de retorno e de overflow para OTT com as empresas telefônicas, ainda com posição de força.
Seria uma grande oportunidade para a radiodifusão fazer ensaios com as agências de publicidade com conteúdos interativos. Esta convergência já e uma realidade nos Estados Unidos. Pouco a pouco o OTT vem se tornando o modelo preferido de acesso ao audiovisual. Poderia ser oferecido pela TV Digital aberta.

ed160_pag54_6

De qualquer modo, as estatísticas mundiais apontam para 4 bilhões e 600 milhões de pessoas no mundo sem Internet domiciliar e o expressivo dado de 78% de televisores nas residências em todo o Planeta. Só não chega a números maiores porque, segundo as Nações Unidas, 1 milhão de pessoas não usufruem de energia elétrica em suas casas.

Esses dados só reforçam a tese de quem a TV aberta e gratuita é uma realidade insofismável, mas quem de fato, está preocupado com isso?

ed160_pag54_7André Barbosa é Superintendente de Suporte da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), trabalhou como Assessor Especial do Ministério da Casa Civil e é doutor pela Universidade de São Paulo em Tecnologia e Estética da Comunicação.
Contato: andre.barbosa@ebc.com.br